Cultura de comunicação a partir do Evangelho

Foto: Ir. Maria Helena Moreira Foto: Ir. Maria Helena Moreira

Em um ambiente cristão e salesiano, a compreensão da corresponsabilidade de assumir a dimensão comunicativa como parte integrante do ser humano e do seu testemunho, é um grande desafio. Uma premissa que se deve ressaltar é que uma cultura de comunicação vai além da transmissão de conteúdos e da produção de informação. Ela é uma vivência, e está inserida no projeto educativo e pastoral. 

Dentro da visão da Igreja (e também salesiana), a “comunicação profissional” é valiosa vocação, que tem uma verdadeira missão social. Sua necessidade no contexto salesiano é imprescindível. Mas esse princípio deixa claro que a geração de uma cultura de comunicação, de um ambiente comunicativo, não depende estritamente de uma pessoa ou de um grupo. Estes podem até assessorar ou facilitar processos. Mas o comprometimento é exigido de toda comunidade. A responsabilidade é coletiva, é de todos. Não é uma tarefa que se delegue.Tanto em documentos dos Salesianos de Dom Bosco (SDB) quanto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), a comunicação é entendida como uma dimensão humana e, assim sendo, todos nós somos comunicadores, embora não sejamos todos profissionais de comunicação. E aqui não desmerecemos a importância destes, muito pelo contrário. 

 

Jesus, nosso modelo

Jesus, nosso grande modelo de comunicador, não o é simplesmente por seu dom da oratória, mas pelo próprio mistério da encarnação: “Por meio da sua encarnação, Ele se tornou semelhante àqueles que receberiam sua mensagem, expressa por suas palavras e por todo seu estilo de vida” (Comunio et Progressio, n.11).

Podemos usar aqui a figura do caminho de Emaús (Lc 24, 14-35), passagem bíblica muito conhecida, porém pouco refletida a partir da ótica comunicativa. 

Jesus, ao aproximar-se dos discípulos que não o reconheceram, primeiro perguntou, escutou, depois caminhou junto com eles, dialogou, explicou as escrituras... por fim, o chamaram para ficar com eles, e na partilha do pão, na comunhão, eles o reconheceram. Em nenhum momento Jesus disse quem era. Seu testemunho, seu “ser Jesus” com gestos, atitudes e palavras, o revelou.

Assim, evangelizar não é o mesmo que fazer propaganda do Evangelho, não é simplesmente emitir ou transmitir mensagens. Aqui a dimensão testemunhal é a verdadeira forma de comunicação da Boa Nova. É caminhando junto, partilhando vida e missão, que Cristo se revela para nós e nós revelamos Cristo aos outros.

 

Ecossistemas

Padre Filiberto Gonzalez, conselheiro geral para a Comunicação salesiana, afirmou no Prefácio da segunda edição do Sistema Salesiano de Comunicação Social (SSCS): “A casa onde se ama e se é amado como em família, o pátio onde é possível alegrar-se e difundir a vida com os amigos, a escola onde se educa a mente a fim de ser produtivos e construtores de uma sociedade mais justa, a paróquia onde se celebra Deus como fim último da vida, são as melhores expressões de um ecossistema onde as pessoas comunicam mais por aquilo que são do que por aquilo que dizem.”

Aqui, ele adianta o uso da palavra “ecossistema”, melhor explicada no referido documento algumas páginas depois (SSCS, p.15): “Hoje se usa uma metáfora mais eficaz: fala-se de ‘ecossistema’. A qualidade da comunicação num determinado contexto somente pode ser garantida por uma pluralidade de fatores que interagem reciprocamente. Resulta que cada pessoa, mas também cada organismo, somente comunica de forma eficaz se houver coerência entre a sua mensagem intencional e as mensagens que ela envia ‘por meio do que faz e do que é’”. Ao partir desta perspectiva, os produtos de comunicação internos e externos, seus sucessos ou fracassos, serão consequências.

Dom Bosco

Dentro dessa dinâmica e desse conceito de ecossistemas comunicativos e da comunicação como “fazer comunidade”, Umberto Eco, um teórico italiano reconhecido, em um de seus artigos atribuiu a Dom Bosco o mérito de uma ‘grande revolução’ no campo da comunicação. E segundo ele, o santo fundador dos Salesianos propôs com o oratório “um novo modo de estar juntos” (SSCS, p. 16).

Perceba-se que o que ele enfatizou em Dom Bosco de revolucionário não foi seu poder de escrita ou suas homilias, mas a sua imaginação sociológica, sua sensibilidade para a realidade do seu tempo e sua dimensão dialogal e participativa, a utilização do lúdico e da arte, a percepção da necessidade de novos modos de agregação.

Aqui estavam as raízes do sistema preventivo, e podemos acrescentar que sua significatividade e eficácia estão vinculadas à experiência educativa e espiritual de Dom Bosco, à sua força testemunhal e coerência entre o ser e o dizer.

Por definição, um ambiente salesiano, seguindo a visão de Dom Bosco e a evangélica, seria favorecedor da criação e/ou fortalecimento de uma cultura da comunicação. Um novo desafio que surge é que hoje a internet também é um destes ambientes, onde também se deve promover uma cultura da comunicação a partir do Evangelho; onde também deveremos ser sinais e portadores do amor de Deus.

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Publicado em Comunicação

1 comentário

  • Ligação de comentário Ivone Aparecida Calvo Marcuzo Quarta, 22 Outubro 2014 22:56 postado por Ivone Aparecida Calvo Marcuzo

    A Madre Geral das FMA é carismática e possui um jeito contagiante de comunicar Paz, Alegria e salesianidade.
    Ela nos motiva para irmos ao encontro dos jovens, nossa porção eleita e privilegiada

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