Sexta, 26 Janeiro 2018 12:48

Violência? Raízes e Folhas

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Violência? Raízes e Folhas iStock.com

A sociedade brasileira está envolvida em discussões sobre a violência que perpassa seu dia-a-dia. Também a Igreja Católica no Brasil está nesta discussão, uma vez que escolheu como tema para a Campanha da Fraternidade 2018: “Fraternidade e superação da violência”.

 

Para resolver um problema é preciso analisá-lo com mais profundidade, tirando-o do senso comum. Todos somos especialistas em violência porque todos temos uma análise e uma solução para apontar. Só que, na maioria das vezes, pecamos ao não nos afastarmos um pouco do clima emocional que toma conta desse tema e não fazemos uma análise adequada. Sugiro a você que leia o Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2018, onde há uma boa análise das causas estruturais da violência, uma iluminação bíblica e algumas propostas de superação.

 

Causas estruturais e causas conjunturais

Lendo a vida de Dom Bosco encontramos um diálogo entre ele e o Marquês de Cavour, que era prefeito de Turim. Ele estava muito preocupado com os encontros de Dom Bosco com os jovens do Oratório. Eram muitos jovens juntos. Isto poderia trazer problemas. O prefeito diz para Dom Bosco não se meter “com estes canalhas”, “com estes vagabundos”. Dom Bosco vai respondendo ao Marquês que eles são “pobres filhos do povo”, “são jovens migrantes abandonados à própria sorte”. Para o prefeito, os jovens são um problema policial. Para Dom Bosco, eles são um problema social. Infelizmente, no imaginário das pessoas há a ideia de que os jovens são violentos. Na realidade, os números dizem que os jovens não são os maiores autores da violência, mas são suas maiores vítimas.

Uma pessoa violenta não nasce assim. Há uma violência estrutural que mata. Somos mais impressionados com um cadáver na rua do que com uma lei injusta que gera muitas mortes. Assim, quando se faz uma lei, pode-se produzir muita violência. Congelamento de salário dos trabalhadores pode ser gerador de violência. Quantas mortes acontecem porque uma lei é injusta! O mesmo se diga da Previdência Social. Cortar benefícios das pessoas pode causar muita violência e morte.

Grande parte dos prisioneiros brasileiros está nas prisões por causa do tráfico de drogas. Certa vez, conversando com um juiz de direito, ele me dizia que trabalhava na vara criminal e que dava cerca de cinco mil ordens de prisão por ano. No entanto, ele dizia que este número poderia ser reduzido a 10% se conseguisse chegar nos barões do tráfico.

Os presos no Brasil têm um perfil muito marcante: 67% são negros, 56% têm entre 18 e 29 anos, e 53% não completaram sequer o Ensino Fundamental. Pergunta-se: é este o perfil da criminalidade brasileira ou é um estigma, uma marca social que faz com que a pobreza seja criminalizada como o fez o Marquês de Cavour no tempo de Dom Bosco?

 

Desigualdade social

Ultimamente estamos envolvidos com uma discussão generalizada e apaixonada sobre corrupção. Para muitos, esse é o maior problema do Brasil. O maior problema do Brasil e do mundo, porém, é a desigualdade social. A corrupção é triste e é um grande problema porque alimenta a desigualdade social, concentrando mais riqueza nas mãos de poucos. Uma grande discussão que perpassa a sociedade brasileira também é a que diz respeito à privatização de bens e serviços do Estado para a iniciativa privada. No entanto, é preciso fazer uma pergunta: na realidade, o Estado brasileiro está a serviço de quem? Quem são os que mais se beneficiam dele? Donde provém as maiores sonegações fiscais? Os trabalhadores não têm condições de sonegar impostos porque eles já são descontados na folha de pagamento. O que o Brasil precisa não é de privatização pura e simplesmente, mas colocar o Estado a serviço da população. O poder do dinheiro pode comprar tudo, até o comando do poder do Estado. Por isso, só a participação ativa e efetiva da população é capaz de barrar esta grande fonte de injustiça que é a concentração de renda nas mãos de poucos.

 

De descartados a imprescindíveis

Muitas vezes a estrutura repressiva do Estado está mais a serviço da proteção de privilégios do que a serviço da população. Nossa sociedade tende a tratar alguns sujeitos sociais como se fossem naturalmente (isto é, de nascença) inferiores: mulheres, jovens, idosos, trabalhadores, negros, índios, pessoas com diferentes orientações sexuais, imigrantes e migrantes.

A superação da desigualdade passa pela ideia de que a maior riqueza do Brasil é seu povo. Quando se exclui um grupo, quando o extermínio de um número exagerado e escandalosamente grande de brasileiros não mais nos comove, então não há como superar a violência. Ninguém é descartável. Infelizmente nossa sociedade ocidental criou um modelo de pessoa e quer que todos se adequem a ele. Este modelo é masculino, branco, adulto, ocidental e cristão. Nessa mentalidade, o sujeito considera inferiores as pessoas que não possuem as mesmas características que ele. O pior é quando as pessoas assumem essa visão e se aceitam como inferiores. É a famosa “pedagogia do oprimido” de Paulo Freire.

No Evangelho de Jesus, algumas vezes se usa a expressão “colocar no centro”. Isso significa tirar algo da insignificância, do descarte, da marginalização e torná-lo imprescindível e necessário. Os diferentes, ao invés de serem perseguidos, deveriam ser compreendidos, inseridos na sociedade e amados. Aliás, violência não se resolve com violência, mas com inclusão e cuidado.

Soluções autoritárias para resolver a violência não fazem parte do Sistema Preventivo de Dom Bosco. A superação da violência passa pela educação. Educar uma pessoa custa tempo, dinheiro, paciência e, sobretudo, amor. Quem realmente segura a paz em nossas comunidades são as pessoas que não desistem e acreditam na possibilidade de convivência pacífica entre todos... Esta era e é a visão de Dom Bosco. Sem raízes poderosas não há folhas bonitas e coloridas.

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Marcos Sandrini

Diretor da Faculdade Dom Bosco de Porto Alegre, RS.  

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