Quinta, 04 Outubro 2018 15:02

Reavivar a fé política

Escrito por  Ir. Iracema Schoeps
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Reavivar a fé política Bogdan Khmelnytskyi/iStock.com

Dom Bosco, entre tantos legados, nos deixou um sobre a política: ele dizia que sua política era a do Pai Nosso. Essa afirmação pode parecer neutra, mas não o é. A palavra Política vem do grego ‘polis’, ‘cidade’ e visa a organização social da mesma.

 

Na política do Pai Nosso, para os cristãos, não se trata de instituir um regime teocrata, mas de conceber a cidade segundo a visão de Deus como Pai; fazer a experiência de Deus como Pai é fazer a experiência de ser irmão e irmã de todos. É crer que o pão de cada dia não seja acumulado, mas partilhado e seja para todos. É crer que o mundo é a Pátria da grande família onde Deus deseja reinar como Pai e o amor fraterno é a concretização deste Reino.

 

Como anda a verdadeira fraternidade no mundo em que vivemos? Não será este o momento de avaliar a história e nos perguntarmos sobre nossa responsabilidade e profecia diante da situação de nosso país? O profeta, na visão bíblica, é alguém que lê criticamente o presente porque também ele vive a mesma realidade e procura julgar os acontecimentos à luz da fé para denunciar o mal e anunciar ao povo a possibilidade de um futuro mais humano e mais justo.

 

Meu desejo, neste artigo, não é o de ser profeta da desgraça, porém a conjuntura mundial parece, muitas vezes, que caminha para o caos e para a barbárie: são regimes políticos totalitários que geram fome, terror, morte, imigração em massa; são guerras, retaliações econômicas, ameaças nucleares. É a centralização das riquezas nas mãos de poucos, a busca desordenada do lucro por meio de uma economia globalizada e centrada na especulação financeira, na produção de armas e não de bens de primeira necessidade para todos, gerando desemprego e oferta para o consumo do supérfluo. Saltam aos olhos as nações dizimadas pela fome, pelas epidemias, pelas guerras. É uma nação contra outra nação. Uma nação procurando devorar outras nações.

 

Ver a realidade

O que constatamos em nosso país? Centralização do poder econômico e dependência do capital internacional. Corrupção nos Poderes que dirigem a Nação. Latifúndio e agronegócio que matam a agricultura familiar, destroem as reservas indígenas, florestas e mananciais e envenenam o mundo com os agrotóxicos. A privatização dos recursos nacionais sem o conhecimento, consulta e aval da população. Para os pobres, restam o desemprego, a falta de moradia, uma educação precária, os postos de saúde e hospitais públicos sem os recursos.

 

O tráfico de entorpecentes enriquece a máfia que o controla e envolve a juventude de todas as classes. Crescem a violência, o porte de armas pesadas e a impunidade. Cresce, também, a cada ano, a violência contra mulheres e jovens, principalmente pobres e negros nas periferias.

 

Acentuam-se o individualismo, a competição, o preconceito, a indiferença, a acomodação; crescem a solidão, a depressão, o analfabetismo virtual, os endividados, drogados, desempregados, idosos sozinhos. Aumenta o número de moradores de rua e dos descartados sem teto, sem-terra, sem emprego.

 

Uma grande ala das Igrejas cala-se diante desse cenário e entorpece o povo com uma espiritualidade alienada e descomprometida com a realidade, como se esta situação fosse a vontade dos céus.

 

A Palavra de Deus

O que a experiência do Povo de Deus e a prática de Jesus de Nazaré têm a nos dizer? Nelas encontramos a mística e a utopia não só para sonhar, mas para construir algo novo. A Palavra de Deus ilumina a mente para julgar a realidade, aquece o coração e fortalece a vontade para agir. Na Bíblia, não há dicotomia entre fé e vida, fé e política como organização social e concretização do Projeto de Deus.

 

Numa leitura atenta, principalmente do Livro dos Juízes, percebem-se os sinais do projeto vivido pelo Povo de Deus nos primeiros tempos. Um dia, esse mesmo povo, já escravo na Babilônia (587aC), se perguntou: por que viemos parar aqui? Porque o Povo e os reis se desviaram do Projeto de Deus. Porque, um dia, as Tribos de Israel escolheram o projeto da serpente, comeram da árvore do centro do paraíso, usurparam de Deus a centralidade do poder: ‘sereis como deuses (...) A serpente (símbolo dos poderes centralizados e opressores), nos enganou’. (Gn. 3,1-7).

 

Em meio a tantas humilhações e dominações do Povo de Deus, Jesus de Nazaré vem anunciar que um outro mundo é possível. Vem proclamar um Reino no qual Deus se revela como Pai. Vem dizer que o amor do Pai persiste e que a vitória final será a implantação do Reino de Deus em todos povos e nações do mundo.

 

Um mundo novo

A lei soberana desse reino é o amor e o bem comum, seu objetivo: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). A vontade de Deus é soberana e Ele proclama: “Buscai, acima de tudo, a justiça e o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6,33). Jesus resume na oração do Pai Nosso, quais devem ser os anseios de todos que o aceitam como caminho. Quando, principalmente, os dirigentes das nações, de grupos, entidades e instituições forem movidos por esses valores e não por outros interesses, vislumbraremos um mundo novo.

 

Enquanto o Reino de Deus como Pai não chega em sua plenitude é preciso ter sensibilidade para descobri-lo e contemplá-lo lá onde ele acontece, pois ele se apresenta pequenino como um grão de mostarda. São os gestos do ‘Reino de Deus”: Gestos de amor que se manifesta na acolhida, na partilha, na gratuidade, na solidariedade, na sensibilidade, no perdão. Porém, será necessário ampliar a consciência cidadã, consciência responsável pela construção da história, segundo a vontade de Deus. ‘A história é a gente quem faz’.

 

Que a experiência do Povo de Deus e as propostas de amor de Jesus de Nazaré nos iluminem nas escolhas que faremos nas próximas eleições e tenhamos o discernimento necessário para uma análise dos projetos dos partidos políticos e dos candidatos com seus interesses pessoais e de classe. É tempo de revisão. O que apoiaremos?

 

Publicado originalmente em Revista Em Família, edição de maio, junho, julho e agosto de 2018, p. 12-15.

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