Terça, 18 Setembro 2018 12:21

Produção textual numa perspectiva da educação salesiana Destaque

Escrito por  Ana Lúcia Farias da Silva
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Produção textual numa perspectiva da educação salesiana Foto: iStock.com

Neste artigo, Ana Lúcia Farias da Silva, mestra em Letras pela UFRRJ e doutoranda em Línguística Aplicada pela Universidade de Évora (Portugal), oferece algumas reflexões sobre a redação no Enem e o ensino da escrita para a promoção do ser e do saber.

 

 

O ato de escrever e produzir textos com desenvoltura e maturidade acadêmica é um longo percurso a se desenvolver, a partir das experiências que se vivenciam desde o núcleo familiar até o caminho que nos leva à escola e, a partir daí, somos individualmente assistidos e preparados para ter êxito nas situações sociais às quais estamos inseridos.

 

Sendo assim, num mundo globalizado, tecnológico e midiático, cada vez mais a ideia de letramento social exige do cidadão a capacidade de expressão oral e escrita em plena proficiência em relação à situação discursiva em que ele se insere. E nessa tarefa de desenvolver as habilidades de escrita de seus alunos é que o educador moderno se vê desafiado a transformar a ação de produzir textos, a partir da essência da simplicidade, ou seja, a receita da leitura diária e conhecimento de mundo que ela nos proporciona.

 

De fato, resgatar esse pensamento da essência simples, humilde e inerente do ser humano para promover uma cultura da vida já era uma preocupação percebida em uma das cartas de São João Paulo II, a Juvenum Patris, de janeiro de 1988, em que as reflexões do Papa abriram espaço para que os educadores modernos, entre os quais os salesianos, repensassem as práticas pedagógicas que preparassem o jovem educando para a vida e para uma profissão.

 

No que tange à preparação do jovem para uma profissão e o mundo do trabalho, essa visão libertadora e ampla de Dom Bosco apontou-nos que o jovem era bom e que conservava uma grande capacidade para o bem, no entanto, era necessário estimular, fazer crescer, através de uma ação racional, motivada e aberta aos valores (o trinômio “razão, religião, bondade”). Para essa finalidade, também a linguagem e seus usos devem permear um trabalho mais efetivo de escrita nas salas de aula, pois uma performance marcada por situações que suscitem atos de leitura, debates e oralidades frequentes confere grande mérito à atuação do professor de Língua Portuguesa e Produção Textual.

 

A nota para a redação

Embora a redação no Enem sinalize para a aferição de nota para o produto “final”, a análise e a correção da redação solidificam e equacionam o que resultou da aprendizagem, sobretudo durante o Ensino Médio, em relação às práticas de texto desenvolvidas na sala de aula. Sendo assim, nessa avaliação é possível compreender, por exemplo, se a Educação Linguística ofertada a esse aluno o levou a dominar uma prática de escrita letrada, crítica e, mais importante, protagonista, já que o texto do aluno/candidato deve deixar transparecer um protagonismo autoral diante do tema estabelecido na ocasião.

 

Ainda sobre o aspecto da avaliação da redação do Enem, são atribuídas as notas mais altas para os textos produzidos com maior qualidade lógico-discursiva, atrelados aos usos da norma-padrão, acrescidos de reflexões de conhecimento de mundo, exemplificações de atualidades e contextos históricos que se reportem adequadamente ao tema tratado. Nessa perspectiva, a redação do Enem corrobora a avaliação de competências e habilidades, como as já atribuídas às demais áreas do conhecimento adquirido durante a escolarização do ensino básico.

 

Ademais, produzir esse texto com boa proficiência para o exame do Enem exige uma prática de leitura diária, não só na sala de aula, como em casa e nos demais ambientes virtuais, representados por blogs e sites que atuam como facilitadores a uma boa análise dos temas que circundam o nosso meio político-social.

 

Além do imediato

Nesse contexto, todo material discursivo a que hoje temos acesso através da internet, como as revistas especializadas, jornais, plataformas de ensino e aprendizagem, são ferramentas que colaboram muito para a competência escrita. Para sustentar o valor que os conhecimentos externos podem agregar a nossa vida social, profissional e acadêmica, como cidadãos e bons cristãos, é preciso acrescentar que, segundo uma passagem da filósofa Edith Stein, “a vida não é sustentada somente pelo interno, mas também pelo externo, quer dizer, pelas coisas que ela encontra e pelas pessoas com as quais convive (...)”.

 

Cabe ressaltar também que tem recaído sobre os jovens que vão prestar o exame do Enem uma cobrança imensa e muitas vezes cruel, da própria sociedade e das famílias, no aspecto da aprovação, numa idade ainda tão cheia de inseguranças. Então, muito mais do que obter a conquista imediata da vaga na universidade, que possamos confiar e enxergar nesses jovens os sonhos e as muitas realizações que eles conseguirão conquistar em seu tempo.

 

Diante desse quadro, propondo contribuir com essa ação pedagógica de educar e preparar esses alunos, para não só realizar a prova do Enem, mas tantas outras pela vida afora, é necessário evidenciar que o trabalho junto à filosofia salesiana é uma proposta que exige a construção de uma escola preocupada com as relações entre as pessoas, sejam elas educandos ou educadores, comprometidas com as práticas emancipadoras e transformadoras da realidade em que se encontram.

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