Sexta, 06 Abril 2018 11:54

São Francisco de Sales e a superação da violência Destaque

Escrito por  Pe. Nildo Moura de Melo (Oblato de São Francisco de Sales)
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Francisco tirou todo método violento da relação com Deus. No trato com o próximo, doçura e gentileza foi sempre o que ele priorizou. Firmeza não exclui bondade.

 

 

São Francisco de Sales é o santo da não-violência. Por não-violência entende-se a recusa de qualquer atitude, postura ou instrumento violento para obter algum propósito. A “não-violência para os cristãos não é um mero comportamento tático, mas um modo de ser da pessoa, uma atitude de quem está tão convicto do amor de Deus e do seu poder, que não tem medo de enfrentar o mal somente com as armas do amor e da verdade” (BENTO XVI, Angelus 18/02/07).

 

Autor da paz

São Francisco de Sales destacou-se pela mansidão, que não era uma ternura frágil, mas uma atitude valente e corajosa para superar a violência em todos os âmbitos das relações de sua sociedade, criando, a partir de sua figura, uma cultura da paz, fundada na justiça e na retidão. Por isso, foi chamado pelos seus contemporâneos de “autor da paz”. Para ele, “os homens fazem mais pelo amor e caridade que pela violência e severidade”.

 

Sua espiritualidade, centrada no amor divino, não admite agressão contra si mesmo ou contra o outro. Francisco tirou todo método violento da relação com Deus. No trato com o próximo, doçura e gentileza foi sempre o que ele priorizou. Firmeza não exclui bondade. Francisco de Sales, “de per si era muito rápido e muito disposto a entrar em cólera, porém, que tratava todos os dias de corrigir-se”.

 

Acolhida

Em seu tempo havia o confronto religioso entre calvinistas e católicos. Como missionário no Chablais, optou por bilhetes e cartas postas por debaixo das portas para dialogar com quem lhe era hostil. Nunca lhes impôs nada. Quis sempre dialogar. Sua sede episcopal em Genebra estava ocupada pelos mesmos protestantes. Muitos propuseram reconquistá-la sob a força da pólvora. O bispo se recusou afirmando: “Temos que derrubar a muralha de Genebra com nossas ardentes orações e assaltá-la com a mútua caridade: nossas forças de assalto têm que derrubá-la mediante o amor!”.

 

Nenhuma agressão era por ele admitida, mesmo quando se dizia que o fim seria a paz: “O que não conseguis pelo amor, não o consigais por outro meio”, repetia o bispo. No trato com os subordinados usou sempre de respeito e empatia. Sabia acolher o diferente e lhe ajudar, se preciso fosse. Para os de então, era normal rechaçar as pessoas com alguma deficiência, mas Francisco acolheu Martinho, jovem surdo, e lhe ensinou uma linguagem de sinais.

 

Tudo por amor

Seus sermões sempre traziam paz. Falava de Deus com docilidade e sabia apontar os erros sem condenar o pecador, buscava explicar sem esgotar o mistério de Deus, instruía sem impor. Diplomata, priorizava o bem-estar das pessoas sem deixar que meios funestos fossem adotados. Muitas vezes foi ofendido e desrespeitado. Conservava, no entanto, a nobreza de sua postura evangélica. Como advogado e bispo fazia valer os direitos dos mais pobres e frágeis da sociedade, sempre propondo a revisão de leis e processos quando as partes menos favorecidas se viam prejudicadas.

 

Ao fundar a Ordem da Visitação de Santa Maria, fez questão de tirar o medo da observância religiosa. Assim, certa vez escreveu em letras maiúsculas: “FAZER TUDO POR AMOR E NADA À FORÇA. AMAR MAIS A OBEDIÊNCIA DO QUE TEMER A DESOBEDIÊNCIA”. “Mais do que temer a desobediência” significa que, por medo, as coisas não têm méritos e, assim, não vale a pena tê-lo mesmo que seja para obter algo virtuoso. “Nada à força” significa sem violência, sem aquilo que aniquila a imagem e semelhança de Deus em nós.

 

Campanha da Fraternidade

Com a Campanha da Fraternidade 2018, São Francisco de Sales nos motiva a superar a violência: criando uma cultura da paz através de relações sociais justas e equitativas, tendo mansidão para consigo e com o próximo; assumindo uma espiritualidade forte, mas não violenta; conhecendo-se e dominando-se para que o melhor de nós paute nossas relações; dialogando nas divergências e recusando o uso de armas para conseguir seus objetivos; educando o nosso modo de falar e instruir; desnudando de palavras e expressões agressivas; respeitando e tendo compaixão para com as realidades do outro, ainda que não nos sejam agradáveis; sabendo dar lugar a humildade; acolhendo o diferente; promovendo o direito de quem é vítima; não valendo-se do medo para influenciar pessoas e assumindo o amor de Deus como a força que supera a violência.

 

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