Mamãe Margarida na obra de Dom Bosco

Sábado, 03 Novembro 2012 12:41 Escrito por  José Augusto Abreu Aguiar
  Na vida de Dom Bosco, desde o seu nascimento até a materialização de seus sonhos, nenhum biógrafo, nenhum registro histórico, pode abrir mão da significativa presença de Margarida Occhiena, sua mãe, cuja memória celebramos em 25 de novembro.   A presença marcante de Margarida Occhiena foi definitiva para que Dom Bosco, nas bases de seu projeto, colocasse como pilares de sustentação a familiaridade, o “espírito de família” e a busca pela santidade. O exemplo de amor, aceitação, confiança e apoio de Mamãe Margarida demonstravam a importância dos princípios evangélicos e da família na formação de novas pessoas, de “bons cristãos e honestos cidadãos”. Tendo ficado viúva, após cinco anos de vida em comum com Francisco Bosco, viu-se obrigada, completamente só, a assumir uma tarefa de grandes desafios e obstáculos: a administração de uma família com quatro membros.  

Agora, em uma Itália dividida, em uma Piemonte com graves problemas políticos/econômicos e vivendo os ares da modernidade, ela precisa conciliar todos os encargos inerentes a um chefe de família pobre e de zona rural. Precisa cuidar da casa, do sustento e educação dos filhos, da lida no campo, da sogra adoentada, das crises econômico-financeiras e da incompreensão de Antônio, um dos filhos de Francisco que assumiu como seu, com relação ao desejo de João Bosco de estudar. Precisa mostrar-se forte, com fé inquebrantável, para suportar e superar todas as vicissitudes do momento.

 

A familiaridade

Mesmo não tendo sido alfabetizada, Mamãe Margarida, em sua sabedoria adquirida nos enfrentamentos da vida, faz-se educadora, com um projeto de maternidade que sintoniza humanidade e santificação.

Em todas as oportunidades, das mais simples às mais complexas, ela não deixa de refletir, com seus filhos, sobre os ensinamentos de Deus, sobre a missão de cada um na busca da salvação.

Usava, na relação com os filhos, a pedagogia do coração, isto é, a de uma mulher de poucas palavras e muita ação que,com simplicidade e sabedoria, traduzia para os seus filhos a complexidade e a grandiosidade do amor. Exercia, com autoridade e paciência, sua influência sobre os filhos. Jamais abria mão de suas convicções, mesmo que, em determinados momentos, tivesse de agir com certo rigor e “dor no coração”.

No Oratório de Valdoco marcou sua presença com aquele característico sentido de família que ainda hoje subsiste nas obras salesianas. Incontáveis sãoos fatos de sua vida, todos narrados nos livros sobre Dom Bosco, em que as lições de fé, de esperança e de caridade estão presentes.

Ao exercer o papel de mãe para os órfãos de Valdoco, foi a cooperadora mais eficiente de seu filho: prepara a refeição, varre, lava, costura e remenda. Mais ainda: encoraja, educa e, na medida de suas limitações, mas na grandeza do seu coração, testemunha a Palavra de Deus.

 

A santidade

A santidade de Mamãe Margarida se entende dentro do quadro de uma camponesa do Piemonte entre os séculos XVIII e XIX, isto é, uma mulher analfabeta (como todas as mulheres pobres de então), mas de uma profunda religiosidade. Religiosidade encarnada na dureza da vida, na capacidade de perceber nas pequenas coisas a grandeza de Deus.

Nesse aspecto, é importante ressaltar que ela amadureceu uma visão de fé tradicional, arraigada nos fundamentos do Concílio de Trento, mas não rigorista. Daí compreende-se como ela vivenciou e transmitiu aos filhos, apesar das orientações da época, uma fé em um Deus criador, bondoso, misericordioso e indulgente.

Na Estreia de 2006, o reitor-mor, padre Pascual Chávez, cita as frases comuns com as quais ela educou os seus filhos legítimos e aqueles adotados no tempo em que ficou com Dom Bosco em Valdoco (1846-1856): "Deus te vê", "como Deus é bom", "com Deus não se brinca" (cf. Estreia 2006, p.39-40). Essa experiência teologal tranformou-se em experiência pedagógica no sistema preventivo vivido no primeiro oratório.

Portanto, a santidade de Mamãe Margarida esteve sempre ligada a uma fé vivida no dia a dia histórico, na materialidade da vida, onde Deus é presença permanente, sensível e misteriosa. Uma fé impregnada de valores simples e profundos: “o sentido do dever e do trabalho, a coragem cotidiana de uma vida dura, a franqueza e a honestidade, o bom humor”. Por isso, ainda no dizer de padre Chávez, ela foi a primeira educadora salesiana  e colaborou com Dom Bosco a moldar nos seus jovens, nos discípulos e na sua família carismática, uma santidade simples, sem ser simplória; profunda, mas sem pieguismo; alegre e jovial, sem ser banal.

 

Conclusão

Podemos afirmar, como conclusão, que Mamãe Margarida empregou, apesar de seu analfabetismo, o seu talento inato de educadora, de mãe e de santa em prol de uma juventude protagonista..

Logo após a sua morte, surgiu uma convicção comum: “era uma santa”. Aqueles que começaram a chamá-la de “mãe santa” testemunhavam que ela jamais abandonou suas convicções, suas crenças, sua fé. Jamais deixou de demonstrar um equilíbrio formidável entre os planos terrestre e celeste.

 

José Augusto Abreu Aguiar é professor da Rede Salesiana de Escolas, no Instituto Nossa Senhora da Glória, em Macaé, RJ
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Última modificação em Quarta, 02 Abril 2014 16:11

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Mamãe Margarida na obra de Dom Bosco

Sábado, 03 Novembro 2012 12:41 Escrito por  José Augusto Abreu Aguiar
  Na vida de Dom Bosco, desde o seu nascimento até a materialização de seus sonhos, nenhum biógrafo, nenhum registro histórico, pode abrir mão da significativa presença de Margarida Occhiena, sua mãe, cuja memória celebramos em 25 de novembro.   A presença marcante de Margarida Occhiena foi definitiva para que Dom Bosco, nas bases de seu projeto, colocasse como pilares de sustentação a familiaridade, o “espírito de família” e a busca pela santidade. O exemplo de amor, aceitação, confiança e apoio de Mamãe Margarida demonstravam a importância dos princípios evangélicos e da família na formação de novas pessoas, de “bons cristãos e honestos cidadãos”. Tendo ficado viúva, após cinco anos de vida em comum com Francisco Bosco, viu-se obrigada, completamente só, a assumir uma tarefa de grandes desafios e obstáculos: a administração de uma família com quatro membros.  

Agora, em uma Itália dividida, em uma Piemonte com graves problemas políticos/econômicos e vivendo os ares da modernidade, ela precisa conciliar todos os encargos inerentes a um chefe de família pobre e de zona rural. Precisa cuidar da casa, do sustento e educação dos filhos, da lida no campo, da sogra adoentada, das crises econômico-financeiras e da incompreensão de Antônio, um dos filhos de Francisco que assumiu como seu, com relação ao desejo de João Bosco de estudar. Precisa mostrar-se forte, com fé inquebrantável, para suportar e superar todas as vicissitudes do momento.

 

A familiaridade

Mesmo não tendo sido alfabetizada, Mamãe Margarida, em sua sabedoria adquirida nos enfrentamentos da vida, faz-se educadora, com um projeto de maternidade que sintoniza humanidade e santificação.

Em todas as oportunidades, das mais simples às mais complexas, ela não deixa de refletir, com seus filhos, sobre os ensinamentos de Deus, sobre a missão de cada um na busca da salvação.

Usava, na relação com os filhos, a pedagogia do coração, isto é, a de uma mulher de poucas palavras e muita ação que,com simplicidade e sabedoria, traduzia para os seus filhos a complexidade e a grandiosidade do amor. Exercia, com autoridade e paciência, sua influência sobre os filhos. Jamais abria mão de suas convicções, mesmo que, em determinados momentos, tivesse de agir com certo rigor e “dor no coração”.

No Oratório de Valdoco marcou sua presença com aquele característico sentido de família que ainda hoje subsiste nas obras salesianas. Incontáveis sãoos fatos de sua vida, todos narrados nos livros sobre Dom Bosco, em que as lições de fé, de esperança e de caridade estão presentes.

Ao exercer o papel de mãe para os órfãos de Valdoco, foi a cooperadora mais eficiente de seu filho: prepara a refeição, varre, lava, costura e remenda. Mais ainda: encoraja, educa e, na medida de suas limitações, mas na grandeza do seu coração, testemunha a Palavra de Deus.

 

A santidade

A santidade de Mamãe Margarida se entende dentro do quadro de uma camponesa do Piemonte entre os séculos XVIII e XIX, isto é, uma mulher analfabeta (como todas as mulheres pobres de então), mas de uma profunda religiosidade. Religiosidade encarnada na dureza da vida, na capacidade de perceber nas pequenas coisas a grandeza de Deus.

Nesse aspecto, é importante ressaltar que ela amadureceu uma visão de fé tradicional, arraigada nos fundamentos do Concílio de Trento, mas não rigorista. Daí compreende-se como ela vivenciou e transmitiu aos filhos, apesar das orientações da época, uma fé em um Deus criador, bondoso, misericordioso e indulgente.

Na Estreia de 2006, o reitor-mor, padre Pascual Chávez, cita as frases comuns com as quais ela educou os seus filhos legítimos e aqueles adotados no tempo em que ficou com Dom Bosco em Valdoco (1846-1856): "Deus te vê", "como Deus é bom", "com Deus não se brinca" (cf. Estreia 2006, p.39-40). Essa experiência teologal tranformou-se em experiência pedagógica no sistema preventivo vivido no primeiro oratório.

Portanto, a santidade de Mamãe Margarida esteve sempre ligada a uma fé vivida no dia a dia histórico, na materialidade da vida, onde Deus é presença permanente, sensível e misteriosa. Uma fé impregnada de valores simples e profundos: “o sentido do dever e do trabalho, a coragem cotidiana de uma vida dura, a franqueza e a honestidade, o bom humor”. Por isso, ainda no dizer de padre Chávez, ela foi a primeira educadora salesiana  e colaborou com Dom Bosco a moldar nos seus jovens, nos discípulos e na sua família carismática, uma santidade simples, sem ser simplória; profunda, mas sem pieguismo; alegre e jovial, sem ser banal.

 

Conclusão

Podemos afirmar, como conclusão, que Mamãe Margarida empregou, apesar de seu analfabetismo, o seu talento inato de educadora, de mãe e de santa em prol de uma juventude protagonista..

Logo após a sua morte, surgiu uma convicção comum: “era uma santa”. Aqueles que começaram a chamá-la de “mãe santa” testemunhavam que ela jamais abandonou suas convicções, suas crenças, sua fé. Jamais deixou de demonstrar um equilíbrio formidável entre os planos terrestre e celeste.

 

José Augusto Abreu Aguiar é professor da Rede Salesiana de Escolas, no Instituto Nossa Senhora da Glória, em Macaé, RJ
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