Relatos de misericórdia: como Dom Bosco corrigia sem humilhar

Sexta, 30 Janeiro 2026 17:02 Escrito por  Agência Info Salesiana
Dom Bosco se inspira em São Paulo e, sobretudo, em Jesus Cristo, que corrige os apóstolos com paciência, suporta suas fragilidades e continua a chamá-los amigos.


Corrigir sem humilhar é um dos desafios mais delicados da educação. Dom Bosco enfrentou essa tarefa ao longo de toda a sua vida, transformando a correção em num verdadeiro ato de misericórdia. Em seus escritos e nos testemunhos de seus contemporâneos, aparece constantemente uma convicção: corrigir não é descarregar a irritação do educador, mas auxiliar o jovem a crescer. Por isso, costumava advertir: “é mais fácil se irritar do que se controlar; (é mais fácil) ameaçar um menino do que persuadi-lo... Há que ser firme, mas gentil e paciente. Para Dom Bosco, a correção é sempre uma obra de caridade: não pode haver inimizade na mente, desprezo no olhar, sequer insulto nas palavras; há que usar misericórdia no presente e esperança para o futuro”.

 

As biografias relatam vários episódios que mostram como Dom Bosco sabia corrigir com mansidão, inteligência, criatividade, evitando qualquer forma de humilhação. Em algumas ocasiões, colocava os jovens diante da verdade sobre si mesmos por meio de pequenos gestos ou situações que revelavam o erro sem expô-los ao ridículo; em outras, acompanhava com paciência conflitos mais graves, auxiliando as pessoas a se reconciliarem. Os jovens observavam: e aprendiam; compreendiam que a correção pode ser um caminho para a paz, e nunca uma condenação.

O primeiro e mais conhecido episódio é o encontro com Bartolomeu Garelli, em 8 de dezembro de 1841, na sacristia da Igreja de São Francisco de Assis. Quando o já jovem disse ao sacristão que não sabia ajudar à missa, esse o insultou e o agrediu. Dom Bosco interferiu imediatamente, perguntando por que maltratava aquele menino ‘que era seu amigo’. Encerrada a missa, sentou ao seu lado e falou-lhe com respeito mostrando todo o interesse por ele, concluindo por propor-lhe um simples catecismo, começando por uma Ave Maria. Daquele início violento nasceu, pela misericórdia, uma relação educativa: para Bartolomeu, iniciava-se um caminho de fé e amizade que se tornaria a primeira semente dos oratórios...

O segundo episódio envolveu Miguel Magone, um rapaz cheio de vida e líder nato, que atravessava um período de isolamento e tristeza. Dom Bosco não o repreendeu nem o rotulou: observou, esperou e, no momento oportuno, convidou-o com delicadeza a abrir o coração, assegurando-lhe que desejava apenas o seu bem. Miguel, então, caiu em prantos, confiou suas lutas interiores, foi acompanhado numa boa confissão e reencontrou a serenidade. A correção passou pelo caminho da escuta e da confiança, e não por um julgamento público.

O terceiro episódio relata Dom Bosco em diálogo com um educador inglês que se vangloriava de manter a disciplina por meio de castigos. Dom Bosco respondeu com franqueza, mas sem dureza: explicou que o verdadeiro fundamento da educação não era o castigo, mas uma vida religiosa autêntica, sustentada pela confissão, pela comunhão, pela santa missa. Sem esses meios – afirmou-lhe - acaba-se por recorre à ameaça. Tocado, o interlocutor reconheceu a verdade daquelas palavras. Voltou corrigido à Inglaterra: mas não humilhado.

Essa mesma lógica aparece nas orientações dadas aos confessores e educadores. Dom Bosco recomendava que ajudassem os jovens a abrir seus corações, e a corrigi-los com bondade. É que a dureza fecha o coração. E afasta. Quando um menino se sente julgado, deixa de falar justamente do que é mais importante. A correção deve, ao contrário: encorajar, indicar passos possíveis, deixando sempre entrever um futuro.

 
Desses episódios emergem alguns critérios fundamentais de sua pedagogia:

Calma interior: quem corrige precisa dominar a si mesmo, para não confundir educação com orgulho ou ira;

Preferência pelo diálogo pessoal: sempre que possível, a correção deve ser feita em particular, preservando a dignidade do jovem;

Misericórdia e esperança: o erro não define a pessoa; todo jovem é muito maior do que a sua falha.

Essa pedagogia da misericórdia não é sinal de fraqueza, mas de força evangélica. Dom Bosco se inspira em São Paulo e, sobretudo, em Jesus Cristo, que corrige os apóstolos com paciência, suporta suas fragilidades e continua a chamá-los amigos. É esse estilo que ele propõe aos Salesianos, a todo educador: corrigir, sim, mas sem humilhar; advertir, sim, mas sempre manter aberta a porta da confiança.

Numa época marcada pelo julgamento imediato e pela exposição à vergonha pública, os relatos de misericórdia de Dom Bosco apontam para um caminho diferente: para o caminho de quem de fato acredita que todo jovem pode - sempre - recomeçar.

Por: Agência Info Salesiana

 

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Última modificação em Sexta, 30 Janeiro 2026 17:17

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Relatos de misericórdia: como Dom Bosco corrigia sem humilhar

Sexta, 30 Janeiro 2026 17:02 Escrito por  Agência Info Salesiana
Dom Bosco se inspira em São Paulo e, sobretudo, em Jesus Cristo, que corrige os apóstolos com paciência, suporta suas fragilidades e continua a chamá-los amigos.


Corrigir sem humilhar é um dos desafios mais delicados da educação. Dom Bosco enfrentou essa tarefa ao longo de toda a sua vida, transformando a correção em num verdadeiro ato de misericórdia. Em seus escritos e nos testemunhos de seus contemporâneos, aparece constantemente uma convicção: corrigir não é descarregar a irritação do educador, mas auxiliar o jovem a crescer. Por isso, costumava advertir: “é mais fácil se irritar do que se controlar; (é mais fácil) ameaçar um menino do que persuadi-lo... Há que ser firme, mas gentil e paciente. Para Dom Bosco, a correção é sempre uma obra de caridade: não pode haver inimizade na mente, desprezo no olhar, sequer insulto nas palavras; há que usar misericórdia no presente e esperança para o futuro”.

 

As biografias relatam vários episódios que mostram como Dom Bosco sabia corrigir com mansidão, inteligência, criatividade, evitando qualquer forma de humilhação. Em algumas ocasiões, colocava os jovens diante da verdade sobre si mesmos por meio de pequenos gestos ou situações que revelavam o erro sem expô-los ao ridículo; em outras, acompanhava com paciência conflitos mais graves, auxiliando as pessoas a se reconciliarem. Os jovens observavam: e aprendiam; compreendiam que a correção pode ser um caminho para a paz, e nunca uma condenação.

O primeiro e mais conhecido episódio é o encontro com Bartolomeu Garelli, em 8 de dezembro de 1841, na sacristia da Igreja de São Francisco de Assis. Quando o já jovem disse ao sacristão que não sabia ajudar à missa, esse o insultou e o agrediu. Dom Bosco interferiu imediatamente, perguntando por que maltratava aquele menino ‘que era seu amigo’. Encerrada a missa, sentou ao seu lado e falou-lhe com respeito mostrando todo o interesse por ele, concluindo por propor-lhe um simples catecismo, começando por uma Ave Maria. Daquele início violento nasceu, pela misericórdia, uma relação educativa: para Bartolomeu, iniciava-se um caminho de fé e amizade que se tornaria a primeira semente dos oratórios...

O segundo episódio envolveu Miguel Magone, um rapaz cheio de vida e líder nato, que atravessava um período de isolamento e tristeza. Dom Bosco não o repreendeu nem o rotulou: observou, esperou e, no momento oportuno, convidou-o com delicadeza a abrir o coração, assegurando-lhe que desejava apenas o seu bem. Miguel, então, caiu em prantos, confiou suas lutas interiores, foi acompanhado numa boa confissão e reencontrou a serenidade. A correção passou pelo caminho da escuta e da confiança, e não por um julgamento público.

O terceiro episódio relata Dom Bosco em diálogo com um educador inglês que se vangloriava de manter a disciplina por meio de castigos. Dom Bosco respondeu com franqueza, mas sem dureza: explicou que o verdadeiro fundamento da educação não era o castigo, mas uma vida religiosa autêntica, sustentada pela confissão, pela comunhão, pela santa missa. Sem esses meios – afirmou-lhe - acaba-se por recorre à ameaça. Tocado, o interlocutor reconheceu a verdade daquelas palavras. Voltou corrigido à Inglaterra: mas não humilhado.

Essa mesma lógica aparece nas orientações dadas aos confessores e educadores. Dom Bosco recomendava que ajudassem os jovens a abrir seus corações, e a corrigi-los com bondade. É que a dureza fecha o coração. E afasta. Quando um menino se sente julgado, deixa de falar justamente do que é mais importante. A correção deve, ao contrário: encorajar, indicar passos possíveis, deixando sempre entrever um futuro.

 
Desses episódios emergem alguns critérios fundamentais de sua pedagogia:

Calma interior: quem corrige precisa dominar a si mesmo, para não confundir educação com orgulho ou ira;

Preferência pelo diálogo pessoal: sempre que possível, a correção deve ser feita em particular, preservando a dignidade do jovem;

Misericórdia e esperança: o erro não define a pessoa; todo jovem é muito maior do que a sua falha.

Essa pedagogia da misericórdia não é sinal de fraqueza, mas de força evangélica. Dom Bosco se inspira em São Paulo e, sobretudo, em Jesus Cristo, que corrige os apóstolos com paciência, suporta suas fragilidades e continua a chamá-los amigos. É esse estilo que ele propõe aos Salesianos, a todo educador: corrigir, sim, mas sem humilhar; advertir, sim, mas sempre manter aberta a porta da confiança.

Numa época marcada pelo julgamento imediato e pela exposição à vergonha pública, os relatos de misericórdia de Dom Bosco apontam para um caminho diferente: para o caminho de quem de fato acredita que todo jovem pode - sempre - recomeçar.

Por: Agência Info Salesiana

 

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