O saudoso Papa Francisco na audiência do dia 13 de novembro de 2019, ao tratar da hospedagem de São Paulo na casa de Áquila e Priscila, declarou: “eles acolhem não só o evangelizador, mas também o anúncio que ele traz consigo”. Esse sentimento descreve a celebração realizada na noite de 16 de outubro, no pátio da Casa São José, sede inspetorial da Missão Salesiana de Mato Grosso, em Campo Grande. A Santa Missa, presidida pelo inspetor, padre Adalberto Alves de Jesus, recordou os 35 anos da visita do Papa São João Paulo II a Campo Grande, ocasião em que ficou hospedado na Casa São José.
Objetos litúrgicos e testemunho da visita papal
Os objetos litúrgicos da celebração: cálice, âmbula e patena foram os mesmos utilizados pelo Santo Padre há 35 anos.
Os concelebrantes foram os padres: Aldir da Silva, Andelson Dias de Oliveira, Erondi Tamandaré, João Marcos Molina e João Bosco Maciel, que fez a homilia e era inspetor da Missão Salesiana de Mato Grosso no ano da visita papal. Ele recordou, com grande riqueza de detalhes, aquelas horas passadas junto a São João Paulo II.
Uma “memória do coração”: bastidores e afeto na visita papal
A fala do Padre João Bosco Monteiro Maciel não foi uma homilia formal, mas aquilo que ele próprio definiu como uma “memória do coração”, classificou.
Em tom descontraído e coloquial, ele resgatou os bastidores das poucas horas, que não chegaram a somar 20, em que o Papa João Paulo II esteve hospedado na casa salesiana de Campo Grande, naqueles dias de outubro de 1991.
O cerimonial rígido e o improviso no jantar
A acolhida ao pontífice mobilizou todos os membros da comunidade e envolveu regras estritas impostas por uma representante do cerimonial do Itamaraty, que “pegou no nosso pé o dia todo”, lembrou padre Bosco com bom humor.
Ela determinou a posição das bandeiras e exigiu um arsenal de talheres e cálices. Contudo, a etiqueta rigorosa para servir os pratos caiu por terra logo no jantar: cansado da cerimônia e das etiquetas, o próprio secretário do Papa tomou a iniciativa, “tomou o prato da mão do servente e despejou no prato do papa, simplificando a refeição”, contou padre Bosco.
O alívio do ar-condicionado e o chuveiro elétrico
O Papa chegou à casa salesiana visivelmente exausto após cumprir compromissos daquele dia sob o calor de Cuiabá às 11 horas da manhã. Ao entrar no quarto preparado com um aparelho de ar-condicionado, manifestou alívio e sentou-se na cama com um “Ai”.
A simplicidade marcou o momento, incluindo o auxílio do irmão salesiano Mestre Salvador (Cosma Salvatore – in memoriam), que acompanhou o Papa até o banheiro para ensinar o funcionamento do chuveiro elétrico recém-instalado. Depois, o religioso demonstrou orgulho por ter sido “o único que entrou no banheiro junto com o papa”, lembrou entre risos a fala do saudoso irmão salesiano.
Fraternidade à mesa e a curiosidade pela jaca
Sem formalidades, padre Bosco lembrou que o Papa pediu para celebrar uma missa na capela local em ação de graças pelos seus 13 anos de pontificado, tendo sido acompanhado pelo padre Totonho (Antônio Secundino de Castro – in memoriam) e padre João Falco (in memoriam).
Após a missa, o Papa quebrou o protocolo mais uma vez e recusou-se a comer isolado. Chamou todos para a mesa: “mas eu vou comer sozinho? Não, venham, venham”, recordou padre João Bosco.
Durante o jantar, entre conversas sobre a Igreja e vocações, o pontífice reparou em uma fruta na mesa e perguntou: “que fruta é aquela?”. Tratava-se de uma jaca. Ele provou, gostou e, no dia seguinte, perguntou se poderia levar uma embora. O ecônomo da casa precisou sair às pressas e conseguiu três jacas trazidas de uma chácara local, que foram embaladas em saco plástico para o voo papal.
Gestos de carinho e a recompensa do reencontro
O relato destacou a humanidade do Papa, desde o abraço consolador na cozinheira dona Zezé até a marca deixada pelos seus sapatos no cimento fresco da igreja do Hospital São Julião.
Anos mais tarde, em 1996, ao reencontrar João Paulo II no Vaticano, padre João Bosco agradeceu a acolhida e mencionou a capital mato-grossense. Ouviu do pontífice uma lembrança bem-humorada: “Ai, que cidadezinha quente”. Para o sacerdote, a maior graça foi ter tido a oportunidade de conviver de perto e com simplicidade com um homem que mais tarde viria a ser canonizado.
Família salesiana participa da celebração
Diversos grupos da Família Salesiana também participaram da celebração como Salesianos Cooperadores, Associação de Maria Auxiliadora (ADMA) e colaboradores da sede inspetorial.
Os salesianos formandos pós-noviços cuidaram dos cantos, tendo resgatado o clássico “A bênção, João de Deus”, música composta especialmente para aquela visita papal. Após a Santa Missa, a Missão Salesiana ofereceu um coquetel a todos os presentes para celebrar festivamente a data.