No coração do Pantanal mato-grossense, a tradição das “desobrigas” — prática pastoral que marcou o catolicismo brasileiro no interior do país — foi revivida com força no último fim de semana. O padre João dos Santos Barbosa Neto, SDB, conduziu uma missão religiosa até a Fazenda Nossa Senhora de Lourdes, acompanhado pelo irmão Eduardo, consagrado da Obra de Maria, e pelas ministras da Eucaristia Almerinda e Rosilene. A fazenda é coordenada pelo senhor Arsênio e sua esposa, a senhora Camila.
Uma prática centenária que resiste no tempo
As desobrigas nasceram no início do século XX como resposta pastoral às imensidões do Brasil rural. Sacerdotes percorriam, a cavalo, em canoas ou a pé, regiões isoladas onde a presença de um padre ocorria uma única vez por ano — quando ocorria. O objetivo era permitir que os fiéis cumprissem os preceitos da Igreja Católica: a confissão, a comunhão pascal, o batismo, o casamento e, quando possível, a crisma.
Registros sacramentais acumulados nessas visitas compõem até hoje parte dos acervos históricos de paróquias brasileiras. Com o aumento do clero e a melhoria dos transportes ao longo do século XX, a prática recuou — mas sobrevive em regiões como o Pantanal e a Amazônia.
A aventura de chegar até a fazenda
A equipe missionária descreveu a travessia como “uma verdadeira aventura e contemplação da beleza”. As estradas e o isolamento da Fazenda Nossa Senhora de Lourdes reproduzem as mesmas condições que tornaram as desobrigas necessárias séculos atrás: distância, natureza densa e comunidades que aguardam a chegada do sacerdote como um evento central na vida religiosa e social do lugar.
Catequese, sacramentos e alegria
A missão teve início na noite de domingo, com a chegada da equipe à fazenda. Na manhã da segunda-feira, 16 de fevereiro, as crianças participaram de uma gincana catequética e os casais de um colóquio de reflexão.
A Santa Missa concentrou o momento mais denso da visita: a celebração de dois casamentos e o batismo de sete crianças, em uma única celebração.
A comunidade, descrita pelos missionários como “muito vibrante e feliz”, encerrou o encontro com um churrasco e um bolo preparado em homenagem aos casais recém-casados.
O papel social da missão
Assim como nas desobrigas tradicionais, a visita à Fazenda Nossa Senhora de Lourdes foi além do aspecto religioso. Ela reforçou os laços comunitários, regularizou vínculos familiares por meio do sacramento do matrimônio e garantiu o batismo de crianças que, de outra forma, aguardariam por tempo indeterminado a presença de um sacerdote. A missão salesiana mantém viva, no Pantanal do século XXI, uma lógica pastoral que o Brasil interiorano conhece há mais de cem anos.
Por: Euclides Fernandes
Missão Salesiana de Mato Grosso