150 anos da chegada dos Salesianos à Argentina – Parte 1

Sábado, 20 Setembro 2025 15:41 Escrito por  Pe. Osmar A. Bezutte, SDB
150 anos da chegada dos Salesianos à Argentina – Parte 1 Tarcizio Odelli, com uso de IA
O capítulo 16 do volume XI das Memórias Biográficas narra os preparativos da viagem dos missionários salesianos para a Argentina, em novembro de 1875, até sua partida da Basilica de Nossa Senhora Auxiliadora de Turim.

 

Desde há muito tempo Dom Bosco pensava em mandar salesianos para a América do Sul. Tinha sonhado com isso. Em março de 1875 disse ao padre Cagliero: “Gostaria de mandar alguns de nossos padres mais antigos para acompanhar os missionários na América e ficar por três meses com eles, até que estejam bem instalados. Deixá-los sozinhos agora sem um apoio, um conselheiro no qual eles tenham confiança, parece-me um pouco cruel. Quando penso nisso o meu coração não aguenta”.

Padre Cagliero respondeu: “Se Dom Bosco não encontrar ninguém a quem confiar essa tarefa, e se acreditar que eu sou adequado, eu estou pronto”.

Os meses passavam sem que Dom Bosco fizesse algum outro aceno a este seu pensamento; mas um dia disse repentinamente ao padre Cagliero: “Quanto a ir para a América, você não mudou de opinião? Você disse brincando que iria?”. “O senhor sabe muito bem que com Dom Bosco não brinco nunca!”, respondeu Cagliero.

“Está bom. Prepare-se, chegou a hora”, confirmou Dom Bosco. Pe. Cagliero no mesmo instante correu para dar ordens para os preparativos, assim que, em poucos dias, trabalhando febrilmente, os levou a termo.

Pe. Cagliero, formado em Teologia pela Régia Universidade, lecionava a moral no Oratório, dirigia vários institutos religiosos na cidade, era professor de música dos jovens, participava dos assuntos mais delicados da Casa; ninguém jamais teria pensado que ele poderia se afastar disso tudo, mesmo que por pouco tempo. Depois de Pe. Cagliero, formou-se o grupo de missionários:

Pe. José Fagnano, destinado a dirigir o colégio de San Nicolás de los Arroyos. Tinha 31 anos, era homem de grande coração e intrépido, professor de literatura no ginásio superior e prefeito primeiro em Lanzo, depois em Varazze.

Pe. Valentim Cassinis, mestre de escola elementar. Deixava uma grande saudade entre os jovens aprendizes, dos quais cuidava.

Iam mais três padres: Pe. Domingos Tomatis, professor de letras no ginásio; Pe. João Batista Baccino e Pe. Tiago Allavena, mestres na escola elementar.

Completavam o grupo quatro coadjutores (Irmãos), que pela ocasião eram denominados catequistas, no sentido que tem essa palavra na linguagem missionária. Eram eles: Bartolomeu Scavini, mestre carpinteiro; Vicente Gioia, cozinheiro e mestre sapateiro; Bartolomeu Molinari, mestre em música vocal e instrumental; Estevão Belmonte, músico e atendente da economia doméstica. 

Dom Bosco dedicou-se a concluir os preparativos para a partida dos missionários. Embora o tempo fosse curto, quis que recebessem a bênção do Vigário de Cristo. Partiram para Roma em 29 de outubro, acompanhados também pelo Comendador Gazzolo. Na festa de Todos os Santos tiveram uma audiência especial com o Santo Padre. Voltaram no dia 4 de novembro, tarde da noite. Dom Bosco fixou o dia da partida para a América: 11 de novembro, uma quinta-feira.

Chegando o dia, desde cedo a Basílica de Nossa Senhora Auxiliadora esteve movimentada. Por volta das 16h a afluência à igreja fazia prever uma multidão sem precedentes. As Vésperas foram cantadas, casando-se às melodias do órgão centenas de vozes juvenis que, debaixo das majestosas abóbadas do templo, ressoavam altas, harmoniosas e devotas. Assim que as Vésperas chegaram ao Magnificat, os missionários entraram no presbitério, dois a dois, colocando-se no meio, em locais preparados para eles. Todos os padres do Oratório e todos os diretores assistiam.

No fim das Vésperas, Dom Bosco subiu ao púlpito. Quando apareceu, naquele mar de pessoas fez-se um profundo silêncio; uma onda de emoção passou por toda a audiência, que se inebriou com suas palavras. Sempre que acenava diretamente aos missionários, sua voz era-lhe velada quase a morrer nos lábios. Só com muito esforço conseguia frear as lágrimas, mas o auditório chorava.

Um jovem colheu suas palavras em suas linhas essenciais. 

Dom Bosco encerrou as orações com sua bênção aos novos missionários, que a receberam em meio ao silêncio geral. Então veio a parte mais comovente da cerimônia, que levantou em todos os cantos soluços e lágrimas e colocou à prova a serenidade dos jovens apóstolos. Enquanto um coro de jovens repetia do coro o motete Sit nomen Domini benedictum ex hoc nunc et usque in saeculum (Seja o nome do Senhor bendito, agora e para sempre), no presbitério o amado Pai e todos os sacerdotes presentes davam o abraço aos peregrinantes. A emoção atingiu o auge quando, saindo pela balaustrada, os dez missionários atravessaram a igreja, passando entre jovens e conhecidos. Apertavam-se ao redor deles para beijar suas mãos e suas roupas.

Dom Bosco chegou por último à soleira da porta, da qual contemplou por um breve momento um grandioso espetáculo: a praça tomada pela multidão e uma longa fila de carruagens esperando os missionários, no brilho das lanternas que iluminavam a noite e nos reflexos do fluxo de luz que saía da porta aberta, debaixo de um céu claro e cheio de estrelas, numa brisa que soprava calma sobre os espectadores.

Os missionários, acompanhados por Dom Bosco e o cônsul argentino, sentaram-se nas carruagens, que primeiro lentamente e depois depressa dirigiram-se à ferrovia. Partiu-se quase imediatamente para Gênova.

Dom Bosco prometera deixar aos missionários algumas lembranças especiais, quase testamento paterno aos filhos que talvez ele nunca mais iria ver. Tinha-os escrito a lápis em seu caderninho durante uma recente viagem de trem e, tendo feito cópias, as entregou a cada um, enquanto se afastavam do altar de Maria Auxiliadora. Ao todo, eram 20 recomendações.

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150 anos da chegada dos Salesianos à Argentina – Parte 1

Sábado, 20 Setembro 2025 15:41 Escrito por  Pe. Osmar A. Bezutte, SDB
150 anos da chegada dos Salesianos à Argentina – Parte 1 Tarcizio Odelli, com uso de IA
O capítulo 16 do volume XI das Memórias Biográficas narra os preparativos da viagem dos missionários salesianos para a Argentina, em novembro de 1875, até sua partida da Basilica de Nossa Senhora Auxiliadora de Turim.

 

Desde há muito tempo Dom Bosco pensava em mandar salesianos para a América do Sul. Tinha sonhado com isso. Em março de 1875 disse ao padre Cagliero: “Gostaria de mandar alguns de nossos padres mais antigos para acompanhar os missionários na América e ficar por três meses com eles, até que estejam bem instalados. Deixá-los sozinhos agora sem um apoio, um conselheiro no qual eles tenham confiança, parece-me um pouco cruel. Quando penso nisso o meu coração não aguenta”.

Padre Cagliero respondeu: “Se Dom Bosco não encontrar ninguém a quem confiar essa tarefa, e se acreditar que eu sou adequado, eu estou pronto”.

Os meses passavam sem que Dom Bosco fizesse algum outro aceno a este seu pensamento; mas um dia disse repentinamente ao padre Cagliero: “Quanto a ir para a América, você não mudou de opinião? Você disse brincando que iria?”. “O senhor sabe muito bem que com Dom Bosco não brinco nunca!”, respondeu Cagliero.

“Está bom. Prepare-se, chegou a hora”, confirmou Dom Bosco. Pe. Cagliero no mesmo instante correu para dar ordens para os preparativos, assim que, em poucos dias, trabalhando febrilmente, os levou a termo.

Pe. Cagliero, formado em Teologia pela Régia Universidade, lecionava a moral no Oratório, dirigia vários institutos religiosos na cidade, era professor de música dos jovens, participava dos assuntos mais delicados da Casa; ninguém jamais teria pensado que ele poderia se afastar disso tudo, mesmo que por pouco tempo. Depois de Pe. Cagliero, formou-se o grupo de missionários:

Pe. José Fagnano, destinado a dirigir o colégio de San Nicolás de los Arroyos. Tinha 31 anos, era homem de grande coração e intrépido, professor de literatura no ginásio superior e prefeito primeiro em Lanzo, depois em Varazze.

Pe. Valentim Cassinis, mestre de escola elementar. Deixava uma grande saudade entre os jovens aprendizes, dos quais cuidava.

Iam mais três padres: Pe. Domingos Tomatis, professor de letras no ginásio; Pe. João Batista Baccino e Pe. Tiago Allavena, mestres na escola elementar.

Completavam o grupo quatro coadjutores (Irmãos), que pela ocasião eram denominados catequistas, no sentido que tem essa palavra na linguagem missionária. Eram eles: Bartolomeu Scavini, mestre carpinteiro; Vicente Gioia, cozinheiro e mestre sapateiro; Bartolomeu Molinari, mestre em música vocal e instrumental; Estevão Belmonte, músico e atendente da economia doméstica. 

Dom Bosco dedicou-se a concluir os preparativos para a partida dos missionários. Embora o tempo fosse curto, quis que recebessem a bênção do Vigário de Cristo. Partiram para Roma em 29 de outubro, acompanhados também pelo Comendador Gazzolo. Na festa de Todos os Santos tiveram uma audiência especial com o Santo Padre. Voltaram no dia 4 de novembro, tarde da noite. Dom Bosco fixou o dia da partida para a América: 11 de novembro, uma quinta-feira.

Chegando o dia, desde cedo a Basílica de Nossa Senhora Auxiliadora esteve movimentada. Por volta das 16h a afluência à igreja fazia prever uma multidão sem precedentes. As Vésperas foram cantadas, casando-se às melodias do órgão centenas de vozes juvenis que, debaixo das majestosas abóbadas do templo, ressoavam altas, harmoniosas e devotas. Assim que as Vésperas chegaram ao Magnificat, os missionários entraram no presbitério, dois a dois, colocando-se no meio, em locais preparados para eles. Todos os padres do Oratório e todos os diretores assistiam.

No fim das Vésperas, Dom Bosco subiu ao púlpito. Quando apareceu, naquele mar de pessoas fez-se um profundo silêncio; uma onda de emoção passou por toda a audiência, que se inebriou com suas palavras. Sempre que acenava diretamente aos missionários, sua voz era-lhe velada quase a morrer nos lábios. Só com muito esforço conseguia frear as lágrimas, mas o auditório chorava.

Um jovem colheu suas palavras em suas linhas essenciais. 

Dom Bosco encerrou as orações com sua bênção aos novos missionários, que a receberam em meio ao silêncio geral. Então veio a parte mais comovente da cerimônia, que levantou em todos os cantos soluços e lágrimas e colocou à prova a serenidade dos jovens apóstolos. Enquanto um coro de jovens repetia do coro o motete Sit nomen Domini benedictum ex hoc nunc et usque in saeculum (Seja o nome do Senhor bendito, agora e para sempre), no presbitério o amado Pai e todos os sacerdotes presentes davam o abraço aos peregrinantes. A emoção atingiu o auge quando, saindo pela balaustrada, os dez missionários atravessaram a igreja, passando entre jovens e conhecidos. Apertavam-se ao redor deles para beijar suas mãos e suas roupas.

Dom Bosco chegou por último à soleira da porta, da qual contemplou por um breve momento um grandioso espetáculo: a praça tomada pela multidão e uma longa fila de carruagens esperando os missionários, no brilho das lanternas que iluminavam a noite e nos reflexos do fluxo de luz que saía da porta aberta, debaixo de um céu claro e cheio de estrelas, numa brisa que soprava calma sobre os espectadores.

Os missionários, acompanhados por Dom Bosco e o cônsul argentino, sentaram-se nas carruagens, que primeiro lentamente e depois depressa dirigiram-se à ferrovia. Partiu-se quase imediatamente para Gênova.

Dom Bosco prometera deixar aos missionários algumas lembranças especiais, quase testamento paterno aos filhos que talvez ele nunca mais iria ver. Tinha-os escrito a lápis em seu caderninho durante uma recente viagem de trem e, tendo feito cópias, as entregou a cada um, enquanto se afastavam do altar de Maria Auxiliadora. Ao todo, eram 20 recomendações.

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