Com cuidado meticuloso, profunda humildade e constante alegria, padre Hilário traduziu dezenas de milhares de artigos, contribuindo para levar a voz da missão salesiana ao mundo de língua portuguesa.
Sua vida é testemunho de perseverança, profissionalismo e amor pela Congregação. Quando solicitado a resumir, numa única frase, seus anos na ANS, ele responde simplesmente: “eu os repetiria todos!”.
Em uma rara entrevista, padre Hilário destaca seus sentimentos mais profundos e a riqueza de seus 26 anos de serviço.
ANS: quando e como você chegou à ANS, do Brasil para Roma?
Depois de, praticamente, 15 anos de trabalho em casas de formação, no Estado de São Paulo, Brasil; após 10 anos na Editora e no Boletim Salesiano para o Brasil; após 10 anos na produção de audiovisuais, em Porto Alegre, RS, durante os quais, em 1983, adoeci de Síndrome de Guillain-Barré (Polineurite Periférica Virótica). Após outros 10 anos na editora, colaborando no Boletim Salesiano – o Regional da América Cone Sul, o padre Helvécio Baruffi me acolheu como seu secretário, na Casa Geral, na Pisana, aonde cheguei às 13h40 do dia 8 de setembro de 2000.
ANS: como o jornalismo entrou em sua vida salesiana? Quais são suas experiências?
Entrou por meio do Boletim Salesiano para o Brasil, do qual tive que cuidar entre 1974 a 1979. Quase tudo surgiu da necessidade (ler outros Boletins Salesianos; fazer quatro minicursos de fotografia em São Paulo; um curso de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
ANS: aproximadamente, quantos artigos o senhor traduziu nesses 26 anos?
Entre longos, normais e curtos (ultimamente tem havido mais revisão do que tradução...), pode-se chegar a cerca de 45/50 mil itens (150/160 por mês). Que acha?
ANS: entre os tantos artigos traduzidos, há algum que tenha ficado particularmente no seu coração?
Eu aprecio todos os artigos “de coração”, mas aqueles que “me partem o coração” são os que tratam de guerras! (o que o Senhor Jesus dirá aos responsáveis, no Dia do Juízo?
ANS: o senhor tem 96 anos e continua trabalhando todos os dias com grande empenho. Não sente cansaço?
Um pouco, sim, mas só durante o trabalho, depois passa!
ANS: muitos dizem que o senhor é muito meticuloso na tradução. De onde vem essa sua atenção?
Não vamos exagerar! Mas a Família Salesiana e cada um de seus membros merece respeito. E isso também faz parte da nossa missão de educadores: de dar sempre o melhor de si! Entretanto, e desde que me conheço, jamais consegui, principalmente na escola, viver distraído.
ANS: sendo brasileiro, o que significa para o senhor traduzir também a cultura e a sensibilidade da língua portuguesa?
Para mim, modestamente, significa buscar o equilíbrio e o bom senso. Fazer-se entender e ler! Além disso, por que não valorizar as pessoas e seus dons? Entre os muitos dons — que Deus nos concedeu, sobretudo, aos brasileiros, por meio de Portugal — há três: a religião católica, o vasto território e a língua lusitana. Há que respeitar a todos, a começar pelo conhecimento da língua nacional. Manter a bandeira hasteada e sempre seguir em frente faz bem a todos!
ANS: o senhor já teve que lidar com uma tradução delicada que exigiu discernimento?
Não me lembro, mas é melhor não falar disso mesmo porque, nesse caso, o tradutor é uma espécie de secretário: e o ‘secretário’ deve manter o ‘segredo’.
ANS: apesar das evoluções tecnológicas, o que permaneceu inalterado no seu trabalho?
Tudo e nada. Continua a vontade de fazer bem — e melhorar — as coisas! Caso contrário, não haveria uma verdadeira evolução. O “cresçam e se multipliquem” dito pelo Senhor Deus, não se refere somente à biologia.
ANS: nesses 25 anos, o senhor viu a ANS crescer e se transformar. Quais mudanças mais o impressionaram?
A ANS reflete a vida vivida pela Congregação: e vi a Congregação não correr, mas voar, para se adaptar e responder à missão. Para mim, essa foi a mudança mais notável e progressiva que ocorreu na ANS, especialmente neste último período. Mas todo período prepara o seguinte!
ANS: o senhor possui um grande conhecimento da Congregação Salesiana, pois como tradutor vê e lê em profundidade todas as notícias em língua portuguesa. O que esse conhecimento lhe diz?
Se entendi bem a pergunta aqui seria preciso estar nas inspetorias: verificar se os coirmãos e a Família Salesiana, globalmente, leem a ANS! “Natura non facit saltus” (a natureza não dá saltos): a cultura — soma de valores que aperfeiçoam a pessoa humana, caso contrário não seria cultura — cresce “pari passu” (ao mesmo tempo ) com o correspondente crescimento dos valores na pessoa. Se não houvesse esse interesse pela vida da própria Congregação também, e antes de tudo, por meio do seu noticiário a pergunta se tornaria real e delicadamente trágica. “Ninguém quer o que não conhece”, diz a nossa filosofia perene.
ANS: aos 96 anos – o que é uma grande graça, considerando seu estilo de trabalho e de vida –, qual é o segredo de sua saúde e de sua energia?
Todos já sabem que nasci para morrer logo (alguns dias depois). Sobrevivi! Aos 53 anos, fui acometido por aquela síndrome. Nessa época, tive que fazer muito exercício físico, sobretudo, nadar até 4 horas por dia e, só após nove meses, pude voltar ao trabalho. Renasci! Dizem, porém, que “para viver muito, é preciso ser doente”. Mas acima de tudo, e fundamentalmente, “é preciso não morrer antes”! E isso é Misericórdia e Bondade de Deus!
ANS: você é conhecido como uma pessoa alegre, que adora sorrir e fazer piadas. Qual a importância do humor em sua vida?
É coisa de família! Ouvi nossos vizinhos no campo dizerem: “esses aí, poderiam ter montado um circo!” de tanto que brincávamos, ríamos e cantávamos em família. Meu pai também cantava como “Baixo” no Coro da Paróquia! Mas não é que nossas vozes fossem todas, todas, celestiais!
ANS: dizem também que você adora a virtude da humildade. Por que é ela tão importante para o senhor? Como surgiu sua vocação salesiana?
Conheci um bom confrade que dizia: “eu sou o mais humilde de todos e disso me orgulho, ninguém me supera!”. Na minha opinião, é exatamente assim: o que somos, ou temos, que não nos tenha sido dado – generosamente – pelo nosso bom Deus?!. Há um belo dito latino que diz: Homo humus. Fama fumus. Finis cinis! O homem é terra, a fama é fumaça, o fim é cinza ou risco de vida).
Quanto ao fato de ser salesiano, meu vilarejo, em Ascurra, SC, contava com a assistência religiosa dos Franciscanos, quase todos alemães. Depois o senhor bispo, ex-aluno salesiano, solicitou padres italianos; chegaram em 1912 e os Salesianos em 1916. Nasci em 1930 e já me sentia em casa: porque tudo já era salesiano. Desde a paróquia até o Colégio São Paulo. Meu irmão não pôde ir para o aspirantado na cidade de São Paulo, distante quatro dias de viagem, por causa da febre amarela. Daí em diante, ele cravou os olhos em mim e, vários anos depois, em 10 de janeiro de 1943, me mandou em seu lugar e é por isso que ainda estou “aqui”.
ANS: você tem um gosto especial pela fotografia. Como surgiu essa paixão?
Por necessidade! Em Lavrinhas (aspirantado), como conselheiro, eu tinha que fazer a crônica da casa. O inspetor, padre José F. Stringari, de querida memória, me deu uma bela câmera, que numa noite de sábado um ladrão me roubou levando tanto a câmera quanto todas as fotos para a crônica.
Mais tarde, na Editora, me encarregaram de editar o Boletim Salesiano; e eu precisava, necessariamente, saber tirar alguma foto. Foi então que dediquei as noites, de quatro semanas, para aprender a fotografar como um apaixonado por fotografia.
Mais tarde ainda, pude fazer no Recife, com o padre Segneri, SJ, um curso de um mês sobre imagem (fotografia, revista, cinema, etc.), de segunda a sábado, e praticar durante quatro domingos.
Por fim, a fotografia voltou a aparecer, por um semestre, no curso de Jornalismo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, dos Irmãos Maristas.
ANS: como o senhor interpreta o jornalismo à luz da missão salesiana?
À luz da missão, interpreto-o, para os Salesianos, como uma necessidade urgente de encontrar uma maneira de chegar aos jovens, inclusive em grande escala. Como transformar a Inteligência Artificial, que é apenas um “meio” num instrumento ético de instrução, de formação e, sobretudo, de salvação, na realidade do Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja, em meio às tantas sociedades secularizadas do mundo?
ANS: na sua opinião, quais valores nunca deveriam faltar no jornalismo salesiano?
Limito-me ao nível das ferramentas utilizadas na InfoANS. Na minha opinião, agora que uma nova era se iniciou na Congregação Salesiana, nunca deveria faltar um artigo – o primeiro de cada dia – sobre formação em comunicação. É isso que nossa missão como educadores salesianos dos jovens exige de nós! Há que “dominar” essa tal IA! Mas nosso jornalismo deve continuar cristalino, elementar, católico, baseado no magistério da Igreja, inspirador, motivador, otimista, sem medos. Mostrar o bem não ofende ninguém.
ANS: que sonhos nutre para o futuro da ANS?
Cada Setor do Conselho tem um programa que deriva do Reitor-mor e do Capítulo Geral. Por isso, cito apenas um sonho: que o setor consiga que – em todas as inspetorias – todos os coirmãos possam ter acesso “ao melhor” das notícias salesianas de ponta, publicadas diariamente na ANS e nos noticiários.
ANS: que mensagem o senhor deseja deixar aos salesianos jovens chamados à Comunicação?
Direi que “Roma non uno die aedificata est” (Roma não se fez num dia). Nada se faz de improviso: mas, se todos, juntos, nos empenharmos ao máximo, tudo, no final, nos ajudará a crescer! “Cresceremos caminhando!”.
ANS: Se tivesse que resumir seus 25 anos na ANS em uma única frase, qual seria?
Antes de dizer isso, gostaria de agradecer aos cinco conselheiros do setor que tive como superiores; aos quatro diretores da ANS; a todos os membros da equipe de Comunicação Social – tanto coirmãos quanto colaboradores, quer presentes quer ausentes. A todos eles, através do padre Fábio, do padre Fidel, do padre Pedro e do padre Harris, que ora nos deixa, gostaria de dizer, no mínimo “Um gigante muito obrigado!
E se tivesse que resumir meus 26 anos na ANS numa única frase, eu diria: “òmnia ìterum fàcerem!” – eu faria tudo de novo.