As celebrações pelo cinquentenário da morte dos Servos de Deus, Padre Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo continuaram nesta quarta-feira, 15 de julho, na presença missionária salesiana de Meruri. Participaram fiéis de Cuiabá, Rondonópolis, Poxoréu, Barra do Garças, Primavera do Leste, Campo Grande e Corumbá.
Seis bispos celebraram a missa, que foi presidida por dom Paulo Renato Fernandes Gonçalves de Campos, bispo da Diocese de Barra do Garças. Pelo menos 50 sacerdotes concelebraram.
A liturgia percorre o chão sagrado da aldeia
A celebração começou no cemitério de Meruri, onde repousam os restos mortais dos Servos de Deus e também de missionários salesianos que dedicaram sua vida no trabalho em favor do povo Boe-bororo, como o padre Gonzalo Ochoa.
No cemitério, após os ritos iniciais, o presidente da celebração acendeu dos círios pascais que foram depositados sobre os túmulos, primeiro de Simão Bororo e, em seguida, do Padre Rodolfo.
Em seguida, começou uma grande procissão com a cruz à frente dos celebrantes e o povo em formação, logo atrás. Sob um sol escaldante da manhã em Meruri, semelhante àquele há 50 anos, o povo entoou a ladainha de todos os santos e outros cantos de procissão. Entre as orações e canções, foram lidos os testemunhos contidos no processo de reconhecimento do martírio dos Servos de Deus, sobre os acontecimentos daquele dia.
O sacrifício atualiza o mistério cristão
Para dom Paulo Renato, a celebração do martírio de Rodolfo e Simão tem conceitos teológicos que a aproximam do memorial católico da paixão de Cristo. Tanto na abertura da celebração quanto na homilia, dom Paulo afirmou que a celebração não é um teatro, mas um memorial vivo. “Então fazer memória não é só lembrar de alguma coisa, é reconhecer que continua vivo, está aqui no nosso meio, está presente esse sentimento, essa vontade de se doar”.
Sobre a celebração, o bispo também explica que ao celebrar o martírio no local onde ocorreu, a Igreja atualiza o evento: “quando a gente celebra o martírio de Simão e Bororo, a gente está trazendo 50 anos no mesmo chão, no mesmo solo (…) nós estamos trazendo para hoje”.
O sangue dos mártires gera frutos de vida e justiça
A morte de Rodolfo e Simão é compreendida pelas lideranças religiosas como um evento que gerou vida para o povo Bororo e para a Igreja.
Dom Paulo Renato observou que, após cinco décadas, os frutos são visíveis na demarcação das terras, no crescimento populacional e na reafirmação da cultura indígena.
Já o Padre João Bosco Monteiro Maciel, SDB, vice-postulador da causa de reconhecimento do martírio, enfatizou o caráter festivo do encontro: “nós não estamos celebrando morte, não estamos celebrando tristeza, mas estamos celebrando vida, pois eles deram a vida para que outros tivessem vida. A morte do padre Rodolfo e do Simão gerou vida para todos”.
A procissão seguiu pela estrada que liga a aldeia Boe-bororo com a casa salesiana. No pátio da comunidade, os indígenas construíram uma grande tenda, no estilo da tradição dos povos originários, para abrigar todos os fiéis do sol e calor intensos deste dia. Esta foi uma escolha feita pelas “mães” da aldeia para ser mais fiel à memória e à cultura Boe-bororo.
Lideranças e familiares acompanham o processo final
A primeira leitura da Liturgia foi feita por uma sobrinha-neta do Servo de Deus, Simão Bororo. Na primeira fila de cadeiras estava o senhor Christian Lunkenbein, sobrinho do Servo de Deus, Padre Rodolfo Lunkenbein. Ele veio da Alemanha com a esposa, Marion Günther-Lunkenbein, e outros familiares especialmente para esta celebração.
Christian disse que se sentiu profundamente tocado e demonstrou grande alegria ao constatar o lugar especial que o tio ocupa no coração do povo Bororo. Também disse ter percebido que a veneração pela figura do Padre Rodolfo é ainda mais forte aqui do que na Alemanha, onde o nome Lunkenbein também é muito estimado. “É evidente que o trabalho que ele fez aqui tem dado frutos significativos”, declarou.
No grupo de 16 pessoas que vieram da Alemanha para a celebração estava também o padre Reinhard Gesing, SDB, atual inspetor da Inspetoria Salesiana da Alemanha.
Ao final da missa ele agradeceu a oportunidade e o convite feito pela Inspetoria Salesiana de Campo Grande para que ele estivesse na celebração. Também lembrou que no último domingo, na missa dominical na catedral de Bamberg, cidade natal do Padre Rodolfo Lunkenbein, estiveram presentes quatro jovens Boe-bororo, que se apresentaram diante do povo, na praça em frente à catedral, com cantos e danças Bororo. “Foi a primeira vez que a cidade de Bamberg ouviu um canto na língua Bororo”, afirmou.
A simplicidade da vida missionária
O padre Adalberto Alves de Jesus, inspetor da Missão Salesiana de Mato Grosso, destacou que a santidade floresceu a partir da simplicidade cotidiana dos missionários.
Ele exortou os fiéis a seguirem o exemplo dos homenageados para que a graça de Deus se manifeste em lugares humildes. Em sua fala, o inspetor pontuou: “celebrando essa memória, queremos recordar da simplicidade da vida dos santos, que naquilo que eram no lugar muito simples, fizeram florescer o projeto e a graça de Deus”.
Dom Paulo Renato concluiu reforçando sua confiança no reconhecimento oficial pela Igreja, ressaltando que, independentemente dos protocolos, o testemunho de fé e a defesa dos povos da terra já conferiram a Rodolfo e Simão a coroa do martírio no sentimento do povo.
História e inaugurações
Após a missa, dom Paulo abençoou e reinaugurou a “Sala de Expressão de Cultura Koge Ekureu”, onde estão expostos materiais de artesanato da cultura Boe-Bororo em Meruri.
Já o padre Adalberto abençoou e inaugurou o Memorial dos Servos de Deus Padre Rodolfo Lunkenbein e Simão Bororo. O espaço reúne imagens, objetos e textos que contam a história da presença missionária salesiana de Meruri, que vai completar 125 anos de trabalho, iniciado em 18 de janeiro de 1902, quando foi fundada a Colônia Sagrado Coração, inicialmente instalada na região dos Tachos (Toripó).
A expedição era composta por Salesianos de Dom Bosco, Filhas de Maria Auxiliadora e colaboradores leigos. O diretor da missão era o padre João Bálzola e a diretora das religiosas era a irmã Rosa Kiste.