A Quaresma é um tempo oportuno para nos prepararmos adequadamente para a celebração da Páscoa de Jesus. Neste tempo quaresmal, a Igreja nos convida a rever a própria vida, exercitando a oração, a caridade e a penitência.
Trata-se também de uma valiosa oportunidade para refletir sobre a relação entre caridade e fé. A crença em Deus Encarnado, Jesus Cristo, torna-se incompleta se não estiver operante no amor; e o amor demonstrado é fruto da ação do Espírito Santo, que nos direciona ao encontro do outro — especialmente dos mais necessitados e vulneráveis.
O Papa Bento XVI, em sua mensagem para a Quaresma de 2013, alertava sobre o risco de uma vivência quaresmal superficial, marcada “tanto pelo fideísmo quanto pelo ativismo moralista”. O caminho para fugirmos dessa tentação é indicado pelo próprio Bento XVI e encontra eco na tradição salesiana: estabelecer uma relação indissolúvel entre fé e caridade, por meio do trabalho e da temperança.
Vivência eclesial e responsabilidade social devem caminhar juntas, em perfeita sintonia, assim como fé e caridade. Nessa mesma perspectiva, ressaltamos as virtudes que Dom Bosco destacava desde os primórdios da obra salesiana: o trabalho e a temperança.
Declarado Pai e Mestre da Juventude por São João Paulo II, Dom Bosco também ficou popularmente conhecido como o “santo da alegria” — e de fato o é. Entretanto, poderia igualmente ser reconhecido como o “santo do trabalho”.
Recordemos o que Domingos Sávio aprendera ao ingressar no Oratório:
“Sabe que nós aqui fazemos consistir a santidade em estar muito alegres. Procuraremos evitar o pecado, como grande inimigo que nos rouba a graça de Deus e a paz do coração; cumprir exatamente os nossos deveres e frequentar as práticas de piedade.
Começa desde já a tomar nota da frase: ‘sirvamos o Senhor em santa alegria’.”
Essa alegria tem raízes profundas na espiritualidade salesiana e sustenta nossa experiência de fé no Cristo Ressuscitado, que, com sua Páscoa, venceu a morte e o pecado. Mesmo na Quaresma, uma alegria serena deve nos acompanhar como sinal de que a esperança vence o medo e a luz dissipa as trevas.
Por isso, não interrompemos nossa caminhada diante do sofrimento de Jesus. Ao contrário, somos chamados a intensificar a vivência do trabalho e da temperança como práticas tipicamente salesianas, que nos ajudam a aprofundar a relação entre caridade e fé, pois “a fé sem obras é morta” (Tg 2,17).
Consideramos Dom Bosco o “santo do trabalho” porque ele experimentou a desafiadora realidade dos trabalhadores e esteve ao lado dos meninos empobrecidos, buscando dignidade para o trabalhador. Por esse motivo, investiu em escolas profissionalizantes e oficinas, visando, com sua fé operante, formar “bons cristãos e honestos cidadãos”.
Assim escreveu nas Memórias do Oratório São Francisco de Sales: “De modo geral, o Oratório era composto por pedreiros, assentadores de tijolos, pavimentadores, cortadores de pedra e outros que vinham de terras distantes.”
Nascido pobre, Joãozinho lidou com a escassez e a dureza da vida desde cedo. Aprendeu a viver a abstinência ainda na infância. Apesar disso, não se tornou um homem triste. Ao contrário, fez da temperança e do trabalho duas virtudes inseparáveis, assim como fé e caridade. Tinha plena consciência de que a vida não é um passatempo irresponsável, mas um compromisso sério, um verdadeiro “presente de Deus”.
Mas, afinal, como os ensinamentos de Dom Bosco podem nos ajudar a viver melhor a Quaresma? Se pudéssemos fazer essa pergunta a ele, provavelmente nos recordaria a importância da virtude da temperança. E o que isso significa, na prática?
A temperança é essencial à vida cristã, pois nos chama à moderação e ao autocontrole. Convenhamos: isso tem profunda relação com as práticas quaresmais.
A disposição para o sacrifício deve fazer parte da vida do bom cristão; contudo, não pode nos escravizar. Mesmo o sacrifício, na perspectiva salesiana, deve ser operoso, oblativo e solidário.
Percebemos, assim, o quanto nosso santo fundador desejou que as “mangas arregaçadas” fossem marca característica da ação da Família Salesiana — o sacrifício de cada um de nós deve ser em favor dos jovens, para o bem da Igreja, especialmente na evangelização e na educação dos mais vulneráveis.
Até o sacrifício requer temperança; não há espaço para excessos. Jesus nos revela o Pai Misericordioso, que nos quer de coração aberto, capazes de nos relacionar com Ele com liberdade, confiança e intimidade, para que promovamos vida plena para todos.
Que a Quaresma seja um verdadeiro tempo de graça e nos prepare para participar plenamente das alegrias da Ressurreição do Senhor.
Por: Pedro Augusto de Almeida Luciano
Inspetoria São João Bosco