Tiago Siqueira Rangel: Quando a medalha brota do coração

Monday, 20 June 2016 20:21 Written by 
A história do jovem Tiago Siqueira Rangel, professor de Educação Física do Instituto Profissional Laura Vicunha, em Campos dos Goytacazes, RJ, pode ser sintetizada nesse pensamento de Albert Einstein: “Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos. Fazer ou não fazer algo só depende de nossa vontade e perseverança”. Além do trabalho realizado na escola da RSE, ele carrega no peito a credencial de treinador chefe da Seleção Brasileira Unificada de Futebol das Olimpíadas Especiais (Special Olympics Brasil) e coordenador estadual de futebol das Olimpíadas Especiais, no Rio de Janeiro.

Com apenas 30 anos, já soma mais de uma década como jogador de futebol. Passou pela seleção brasileira de futebol Sub 17, jogou no Vasco da Gama, no Goytacaz, Paysandu e Clube do Remo, dentre outros. “Em 2012, fui convidado a fazer uma capacitação para treinador de futebol para as Olímpiadas Especiais (Special Olympics), que visa a dar oportunidades a pessoas com deficiência intelectual a práticas esportivas”, recorda-se Tiago.

Foi também em 2012 que nasceu a Lara, primeira filha de Tiago. Na ocasião, veio o diagnóstico de que a bebê era portadora da Síndrome de “West”, que promove um atraso no desenvolvimento motor, baixa coordenação, dentre outras características, além do grande risco de morte precoce. Um ano depois nasceu o Lucas, que também veio com uma deficiência motora, classificada como Síndrome de Melas, por causa uma incompatibilidade genética do casal só diagnosticada após o nascimento dos bebês. “A Lara faleceu há dois anos, quando tinha 1 ano. Lucas está crescendo com todo o nosso cuidado e temos a intenção de, um dia, adotar uma criança para ampliar a família”, sonha Tiago. “Na vida, nada é por acaso, e quando Lara nasceu, eu já conhecia os desafios e já sabia o que devíamos fazer. Passei a estudar mais, fiz uma pós-graduação em Psicomotricidade e Educação Física Escolar... realmente parece que Deus me preparou para os desafios que viriam”, pondera.

 

Calendário dinâmico

O calendário de atividades esportivas promovidas pelo Special Olympics é intenso nos quase 200 países que aderiram ao desafio de incluir pessoas com deficiência intelectual por meio da prática esportiva. Só no Brasil há pelo menos 18 mil atletas credenciados, com variados graus de deficiência, em um universo estimado de 100 mil pessoas, segundo o último Censo do IBGE de 2013. No mundo, estima-se que haja 200 milhões de pessoas com deficiência intelectual. Segundo dados da organização mundial, são cerca de 2,5 milhões de atletas credenciados nessa categoria.

Os compromissos de Tiago, como multiplicador dessa proposta, também são enormes. Ele viaja o Brasil inteiro para capacitar e certificar outros profissionais para treinar novos atletas, bem como para as provas e treinos. “Todo final de semana temos atividades, jogos locais, estaduais, nacionais, e depois os internacionais. No ano que vem, temos o Pan-americano, em El Salvador, e a Copa Ouro de Futebol, no Panamá. Os atletas têm de estar em plena atividade, para representação do país em todas essas competições internacionais”, alerta.

 

Derivações

A organização nascida nos EUA tem vários programas voltados ao propósito de promover o bem-estar do atleta e incentivar a prática esportiva. O programa Atleta Saudável, por exemplo, oferece a possibilidade de uma série de exames, como os  ortopédicos, oftálmicos, auditivos, cuja assistência é feita gratuitamente.

No programa Juventude e Escolas, o processo de inclusão é realizado dentro das escolas, onde são feitos diagnósticos junto às secretarias de educação e identificados quais são os projetos que podem ser implementados nos municípios. “Um deles é o JEMA – Jogos estudantis municipais adaptados, porque toda prefeitura organiza os JEM, e a gente amplia essa proposta para incluir as pessoas com deficiência”, esclarece.

Outra modalidade é o Esporte Unificado, que forma delegações de pessoas com deficiência jogando com pessoas sem deficiência. Cada time é comporto de seis atletas com deficiências e cinco parceiros. “Tivemos a 3ª Copa América, no Uruguai, com a colocação do Brasil em 4º lugar. Nas competições de alto rendimento não se percebe qualquer tipo de deficiência no time”.

 

De um pai para os filhos

Além da sua experiência profissional, Tiago hoje pode falar sobre aceitação, inclusão e superação para famílias que vivem o desafio de educar e incluir uma criança com algum tipo de deficiência. “A aceitação é a primeira fase para os pais que têm um filho especial. Hoje em dia, as pessoas com deficiência já conquistaram mais autonomia. São pessoas, antes de mais nada, e têm o mesmo direito de trabalhar e conviver socialmente”, analisa.

“Como o legado que Dom Bosco e Madre Mazzarello nos ensinaram, é cativante poder trabalhar pela inclusão dessas pessoas por meio do esporte e ver que elas respondem com o seu melhor.  Pela minha história de vida, passo a ter um desafio de ser um agente transformador e batalhador por essas pessoas. A história do Rafael , por exemplo, um dos nossos atletas, é emblemática. No parto, o bebê teve falta de oxigenação no cérebro e o médico informou à mãe que seu filho teria uma vida cheia de limitações. Em 2010, quando Rafael tinha 17 anos, correu uma meia maratona ao lado do Robson Caetano, no Rio de Janeiro. Tirei uma foto, dei à mãe dele e recomendei que ela levasse ao médico que diagnosticou limitações severas para a criança...”

Tiago afirma que a síntese de 10 anos de trabalho é uma estratégia de promover a aceitação dessas pessoas com deficiência e mostrar que todos podemos ser agentes de mudanças. Os atletas com deficiência intelectual têm treinamento contínuo, o que proporciona os meios para construir um mundo melhor para eles e para toda a comunidade. “Na parte da Educação Física, eu posso desenvolver seus potenciais baseado em estudos científicos e aumentar o desempenho de todas essas pessoas. Esse é o sonho de todo educador.”

Os pilares da Rede Salesiana de Escolas dão a base para projetos de amor aos valores cristãos, de acolher seja quem for. “Com esta base, sou apaixonado pelo meu trabalho, amo meus alunos e tudo isso é muito gratificante. Meus planos para o futuro são continuar trabalhando para esses jovens e conquistar o título de campeão dos Jogos Pan-americanos e da Copa Ouro de Futebol no ano que vem. Como dizia Madre Mazzarello, não basta começar, é preciso continuar sempre. Continuo lutando por meu filho e pelos meus alunos. Agradeço a Deus por fazer parte da Família Salesiana, e poder levar a bandeira da minha escola onde eu estiver”, conclui Tiago.  

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Tiago Siqueira Rangel: Quando a medalha brota do coração

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A história do jovem Tiago Siqueira Rangel, professor de Educação Física do Instituto Profissional Laura Vicunha, em Campos dos Goytacazes, RJ, pode ser sintetizada nesse pensamento de Albert Einstein: “Deus não escolhe os capacitados, capacita os escolhidos. Fazer ou não fazer algo só depende de nossa vontade e perseverança”. Além do trabalho realizado na escola da RSE, ele carrega no peito a credencial de treinador chefe da Seleção Brasileira Unificada de Futebol das Olimpíadas Especiais (Special Olympics Brasil) e coordenador estadual de futebol das Olimpíadas Especiais, no Rio de Janeiro.

Com apenas 30 anos, já soma mais de uma década como jogador de futebol. Passou pela seleção brasileira de futebol Sub 17, jogou no Vasco da Gama, no Goytacaz, Paysandu e Clube do Remo, dentre outros. “Em 2012, fui convidado a fazer uma capacitação para treinador de futebol para as Olímpiadas Especiais (Special Olympics), que visa a dar oportunidades a pessoas com deficiência intelectual a práticas esportivas”, recorda-se Tiago.

Foi também em 2012 que nasceu a Lara, primeira filha de Tiago. Na ocasião, veio o diagnóstico de que a bebê era portadora da Síndrome de “West”, que promove um atraso no desenvolvimento motor, baixa coordenação, dentre outras características, além do grande risco de morte precoce. Um ano depois nasceu o Lucas, que também veio com uma deficiência motora, classificada como Síndrome de Melas, por causa uma incompatibilidade genética do casal só diagnosticada após o nascimento dos bebês. “A Lara faleceu há dois anos, quando tinha 1 ano. Lucas está crescendo com todo o nosso cuidado e temos a intenção de, um dia, adotar uma criança para ampliar a família”, sonha Tiago. “Na vida, nada é por acaso, e quando Lara nasceu, eu já conhecia os desafios e já sabia o que devíamos fazer. Passei a estudar mais, fiz uma pós-graduação em Psicomotricidade e Educação Física Escolar... realmente parece que Deus me preparou para os desafios que viriam”, pondera.

 

Calendário dinâmico

O calendário de atividades esportivas promovidas pelo Special Olympics é intenso nos quase 200 países que aderiram ao desafio de incluir pessoas com deficiência intelectual por meio da prática esportiva. Só no Brasil há pelo menos 18 mil atletas credenciados, com variados graus de deficiência, em um universo estimado de 100 mil pessoas, segundo o último Censo do IBGE de 2013. No mundo, estima-se que haja 200 milhões de pessoas com deficiência intelectual. Segundo dados da organização mundial, são cerca de 2,5 milhões de atletas credenciados nessa categoria.

Os compromissos de Tiago, como multiplicador dessa proposta, também são enormes. Ele viaja o Brasil inteiro para capacitar e certificar outros profissionais para treinar novos atletas, bem como para as provas e treinos. “Todo final de semana temos atividades, jogos locais, estaduais, nacionais, e depois os internacionais. No ano que vem, temos o Pan-americano, em El Salvador, e a Copa Ouro de Futebol, no Panamá. Os atletas têm de estar em plena atividade, para representação do país em todas essas competições internacionais”, alerta.

 

Derivações

A organização nascida nos EUA tem vários programas voltados ao propósito de promover o bem-estar do atleta e incentivar a prática esportiva. O programa Atleta Saudável, por exemplo, oferece a possibilidade de uma série de exames, como os  ortopédicos, oftálmicos, auditivos, cuja assistência é feita gratuitamente.

No programa Juventude e Escolas, o processo de inclusão é realizado dentro das escolas, onde são feitos diagnósticos junto às secretarias de educação e identificados quais são os projetos que podem ser implementados nos municípios. “Um deles é o JEMA – Jogos estudantis municipais adaptados, porque toda prefeitura organiza os JEM, e a gente amplia essa proposta para incluir as pessoas com deficiência”, esclarece.

Outra modalidade é o Esporte Unificado, que forma delegações de pessoas com deficiência jogando com pessoas sem deficiência. Cada time é comporto de seis atletas com deficiências e cinco parceiros. “Tivemos a 3ª Copa América, no Uruguai, com a colocação do Brasil em 4º lugar. Nas competições de alto rendimento não se percebe qualquer tipo de deficiência no time”.

 

De um pai para os filhos

Além da sua experiência profissional, Tiago hoje pode falar sobre aceitação, inclusão e superação para famílias que vivem o desafio de educar e incluir uma criança com algum tipo de deficiência. “A aceitação é a primeira fase para os pais que têm um filho especial. Hoje em dia, as pessoas com deficiência já conquistaram mais autonomia. São pessoas, antes de mais nada, e têm o mesmo direito de trabalhar e conviver socialmente”, analisa.

“Como o legado que Dom Bosco e Madre Mazzarello nos ensinaram, é cativante poder trabalhar pela inclusão dessas pessoas por meio do esporte e ver que elas respondem com o seu melhor.  Pela minha história de vida, passo a ter um desafio de ser um agente transformador e batalhador por essas pessoas. A história do Rafael , por exemplo, um dos nossos atletas, é emblemática. No parto, o bebê teve falta de oxigenação no cérebro e o médico informou à mãe que seu filho teria uma vida cheia de limitações. Em 2010, quando Rafael tinha 17 anos, correu uma meia maratona ao lado do Robson Caetano, no Rio de Janeiro. Tirei uma foto, dei à mãe dele e recomendei que ela levasse ao médico que diagnosticou limitações severas para a criança...”

Tiago afirma que a síntese de 10 anos de trabalho é uma estratégia de promover a aceitação dessas pessoas com deficiência e mostrar que todos podemos ser agentes de mudanças. Os atletas com deficiência intelectual têm treinamento contínuo, o que proporciona os meios para construir um mundo melhor para eles e para toda a comunidade. “Na parte da Educação Física, eu posso desenvolver seus potenciais baseado em estudos científicos e aumentar o desempenho de todas essas pessoas. Esse é o sonho de todo educador.”

Os pilares da Rede Salesiana de Escolas dão a base para projetos de amor aos valores cristãos, de acolher seja quem for. “Com esta base, sou apaixonado pelo meu trabalho, amo meus alunos e tudo isso é muito gratificante. Meus planos para o futuro são continuar trabalhando para esses jovens e conquistar o título de campeão dos Jogos Pan-americanos e da Copa Ouro de Futebol no ano que vem. Como dizia Madre Mazzarello, não basta começar, é preciso continuar sempre. Continuo lutando por meu filho e pelos meus alunos. Agradeço a Deus por fazer parte da Família Salesiana, e poder levar a bandeira da minha escola onde eu estiver”, conclui Tiago.  

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